quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Novos pensamentos, novas ações

Procuramos elaborar neste texto algumas reflexões e sugestões aos Centros Espíritas e ao movimento espírita em geral, face à queixa de muitos dirigentes sobre o afastamento de frequentadores e tarefeiros das atividades, após a pandemia da Covid. Sabemos que, durante o período da grave pandemia, por força de lei e dos protocolos de segurança sanitária, os Centros Espíritas não puderam realizar reuniões e atividades presenciais, migrando muitas delas para o modo online através da internet. Pouco a pouco, com o advento das vacinas, a pandemia foi passando e as atividades presenciais foram sendo retomadas, tendo cada Centro Espírita deliberado a seu tempo quanto a esse retorno. O fato é que houve diminuição no número de tarefeiros e de frequentadores, e devemos nos perguntar, diante desse fato, qual a causa ou causas desse fenômeno, para podermos estabelecer ações que visem levar o público novamente aos Centros Espíritas e aos eventos promovidos pelo movimento espírita.

Uma primeira observação a fazer, e que constatamos em conversas com dirigentes dos Centros Espíritas de várias regiões do país, é que muitas instituições levaram tempo muito longo para retorno das atividades presenciais. Temos notícia de Centros Espíritas que ficaram com as portas fechadas ou com funcionamento parcial, por dois anos, o que consideramos tempo demasiado longo, propício para causar o afastamento das pessoas. Muitas se acomodaram com o conforto do lar, acompanhando palestras a distância, e agora estudam o Espiritismo apenas e tão somente no modo online. Nada temos contra a internet e suas ferramentas, muito úteis quando utilizadas para o bem, e nós mesmos muito as utilizamos, mas somos seres de relação, e existem atividades que somente obtém bons resultados no modo presencial. Como fazer reunião de desobsessão pela internet?: Como evangelizar crianças e jovens somente por aplicativos? Como esclarecer e consolar apenas por Whatsapp? Como socorrer através do passe apenas a distância, virtualmente? Não é possível desenvolver a assistência e promoção social pela internet.

Algumas pessoas, e num número considerável, alegam que evitam ir ao Centro Espírita por terem medo da aglomeração das pessoas num recinto fechado, qual o da reunião pública de palestra, ou do grupo de estudo, ou ainda da reunião mediúnica Essa alegação carece de fundamento diante da frequência, dessas mesmas pessoas, aos shoppings, aos cinemas, aos teatros, aos supermercados, aos transportes públicos e aos estabelecimentos profissionais em que atuam. Por que somente o Centro Espírita é perigoso? As redes sociais estão repletas de fotos e vídeos de espíritas fazendo turismo, o que não é proibido, ou seja, vive-se normalmente a vida, menos incluindo nela o Centro Espírita. Isso representa uma grande contradição, pois sabemos que o Centro Espírita recebe a proteção das equipes benfeitoras espirituais, e ficar infectado por um vírus ou uma bactéria pode acontecer em qualquer lugar, por qualquer motivo, e não necessária e especificamente no Centro Espírita.

Somos seres relacionais, dependemos uns dos outros, e não há inteligência artificial, robótica, aplicativo, que possa substituir o abraço entre duas ou mais pessoas. Nosso progresso moral e intelectual é realizado na convivência, na troca, no apoio mútuo, e isso fica bastante limitado no modo online. Muitas pessoas estão sofrendo de depressão e outras síndromes por motivo de estarem muito isoladas, muito sozinhas, restritas ao ambiente doméstico e à internet, isso quando tem esse acesso e com boa qualidade.

Precisamos retomar, com urgência, as atividades presenciais no Centro Espírita e também no movimento espírita, voltando a realizar congressos, seminários, encontros, cursos. Se tudo voltou ao normal, inclusive as igrejas católica e protestante (evangélica), porque os Centros Espíritas estão à míngua de público e tarefeiros?

Os dirigentes espíritas precisam rever seus procedimentos, seu entendimento do Espiritismo e do papel de relevância do Centro Espírita. Não é mais possível ficar apenas se queixando da falta das pessoas, sem mudar uma única vírgula em suas ações. E uma ação urgente é melhorar a comunicação, utilizando, por exemplo, as redes sociais como ferramentas de apoio na divulgação. Também utilizar as palestras públicas para falar do Centro Espírita e suas atividades, convidando o público a se engajar nas mesmas, mostrando o que se faz e porque se faz. Naturalmente os dirigentes não podem ser centralizadores, sabendo trabalhar com a delegação de tarefas, sabendo ouvir as ideias, e sabendo implementar com dinamismo o que for bom e útil.

Aqui precisamos dar uma palavra sobre a reunião pública de palestra. É a porta de entrada do Centro Espírita e do próprio Espiritismo. Os temas têm que ser adequados à diversidade do público e suas necessidades. Não cabe, à guisa de exemplo, pedir para o palestrante falar sobre Perispírito e Suas Propriedades, ou Gênese da Criação Divina, temas para grupo de estudo e não para palestra pública, onde melhor se adéquam temas ligados ao Evangelho: Por que Sofremos?; Como Amar o Nosso Próximo; Perdoar é Viver Melhor e assim por diante. Tanto o dirigente quanto o palestrante devem lembrar que tem diante de si pessoas com nenhum ou pouco conhecimento do Espiritismo, e que muitas vezes ali estão para serem esclarecidas e consoladas diante de provas e expiações pelas quais estão passando.

Aliar o presencial com o online não é problema. O problema é ficar apenas com o online. O problema é repetir indefinidamente procedimentos que não estão dando certo, que não alcançam os resultados desejados.

Recomendamos aos dirigentes espíritas a leitura e meditação dos livros Centro Espírita (José Herculano Pires); Centro Espírita, Escola de Almas (minha autoria); As Dimensões Espirituais do Centro Espírita (Suely Caldas Schubert); Centro Espírita: Tendências e Tendenciosidades (César Braga Said), entre outros de real valor e importância, que servirão de base para novos pensamentos e novas ações diante dos tempos atuais e visando um futuro melhor para a humanidade.

Se estão faltando frequentadores, precisamos convidá-los com afetivo acolhimento. Se estão faltando tarefeiros, precisamos qualificar novos tarefeiros. O que não pode acontecer é o Centro Espírita comemorar 50 anos de existência e os dirigentes se orgulharem de fazer tudo igual como era feito naquele tempo. Infelizmente essa história é verídica, presenciada por este que escreve estas linhas.

Dizem-nos os Espíritos Superiores que o Espiritismo, bem compreendido, é o remédio que irá destruir o egoísmo. Estamos bem compreendendo o Espiritismo e, igualmente, o Centro Espírita?


Jesus, mestre dos mestres


 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Do ponto de partida ao alvo

Numa competição de atletismo, normalmente os atletas se concentram num ponto de partida para iniciar a competição, tendo que atingir um alvo pré-determinado, seja a linha de chegada, a maior distância ou altura possível, e assim por diante. Sempre tem um ponto de partida e um alvo a ser atingido, portanto, há todo um processo em desenvolvimento, e quando o alvo não é alcançado, tenta-se outra vez tantas vezes quanto for possível, seja na mesma competição, de acordo com as regras, ou em competições futuras ao longo do tempo. Assim também com relação ao processo evolutivo do Espírito. O ponto de partida é a criação divina, dotados que somos de todo o potencial intelectual e sentimental, em gérmen, para desenvolver, o que se dá através das múltiplas existências ou reencarnações, e o alvo é chegar à perfeição intelectual e moral, conhecido como estado de Espírito Puro ou Perfeito, do qual temos como exemplo Jesus.

Essa evolução até o alvo passa por estágios muito bem definidos pelo Espírito Lázaro, em preciosa e profunda mensagem escrita no ano de 1862, na cidade de Paris, e que Allan Kardec publicou como parte do capítulo XI da obra O Evangelho Segundo o Espiritismo. Prestemos atenção ao seguinte trecho:

Disse que o homem, no seu início, tem apenas instintos. Aquele pois, em que os instintos dominam, está mais próximo do ponto de partida que do alvo. Para avançar em direção ao alvo, é necessário vencer os instintos a favor dos sentimentos, ou seja, aperfeiçoar a estes, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões dos sentimentos. Trazem consigo o progresso, como a bolota oculta o carvalho. Os seres menos adiantados são os que, libertando-se lentamente de sua crisálida, permanecem subjugados pelos instintos.

Segundo depreendemos, quando o Espírito encontra-se nos primórdios de sua evolução movimenta-se através dos instintos, que lhes são dados por Deus como ferramentas úteis diante dos desafios existenciais, portanto, os instintos não são ruins, mas precisam ser lapidados, desenvolvidos. Quem, neste mundo de expiações e provas, fica demasiadamente ligado aos instintos, prova que está muito mais perto do ponto de partida do que do alvo a ser atingido, ou seja, a perfeição. O processo de evolução consiste em, paulatinamente, mas com força de vontade, vencer os instintos, permitindo o desabrochar dos sentimentos. Segundo Lázaro, não se trata de substituir os instintos pelos sentimentos, mas aperfeiçoar os instintos, que vão se transformando nos sentimentos, pois os instintos nunca são perdidos, mas deixam de estar atrelados unicamente às questões materiais, cedendo terreno para as questões espirituais do viver.

Temos no texto um exemplo maravilhoso desse processo, quando ele compara o instinto à bolota do carvalho, ou seja, à semente que dá origem à árvore. Diante da semente, não podemos imaginar a árvore grande e frondosa que dela irá surgir, mas cujos princípios ativos já estão ali presentes. O mesmo ocorre com o Espírito, inicialmente princípio inteligente do universo, que vai transformando os instintos mediante o progresso intelectual e moral que realiza de encarnação em encarnação, de experiência em experiência, de aprendizagem em aprendizagem. Então, vai adquirindo consciência de si mesmo, passa a pensar, raciocinar, adquirindo o livre arbítrio e responsabilizando-se por suas ações diante da lei divina, até compreender e vivenciar o amor, último estágio, mas também com gradações, para efetivar sua perfeição, para finalmente atingir o alvo a que é destinado pela determinação de Deus, Pai e Criador.

Aprender a amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, é a missão que cumpre realizarmos aqui na Terra, transformando nossos instintos em sentimentos. Como exemplo, estudemos um pouco o instinto de conservação, que nos faz ter ações de preservação da vida, como procurar alimento periodicamente para sustentação das energias corporais. Algumas pessoas exageram esse instinto, alimentando-se sem equilíbrio, exageradamente, provocando males orgânicos evitáveis, vivendo presos à materialização do instinto de conservação, prejudicando não somente a si, mas também aos outros e à natureza, pois todo excesso é prejudicial ao progresso do Espírito.

Com relação ao sentimento do amor, tomemos cuidado em não confundi-lo com posse do outro, pois na verdade isso é egoísmo, não é amor, assim como confundi-lo com o sexo é estar muito mais ligado aos instintos do que aos sentimentos, pois ninguém é objeto para satisfação dos desejos animalizados do outro, todos somos Espíritos imortais, filhos de Deus, com os mesmos direitos e mesma destinação.

Nosso ponto de partida já vai longe, não somos mais Espíritos nos estágios iniciais da evolução, mas temos que convir que estamos ainda muito, muito longe do alvo, bem distanciados da perfeição, entretanto, em contrapartida, estamos cientes que o processo evolutivo está em andamento, e que só depende dos nossos esforços acelerar a transformação dos instintos em sentimentos, bem aproveitando a oportunidade encarnatória para mais um passo decisivo rumo ao alvo, que pacientemente nos aguarda, sabedor que um dia chegaremos a ele.


segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A palavra divina

Qual é a palavra divina que tudo transforma e faz os seres humanos terem entendimento diferenciado sobre a vida, num nível mais profundo e espiritualizado? Essa palavra é o amor, conforme entendemos na leitura do texto do Espírito Lázaro, no primeiro parágrafo de sua mensagem publicada no item 8 do capítulo 11 de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Feliz aquele que amam porque não conhece as angústias da alma, nem as do corpo. Seus pés são leves, e ele vive como transportado fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou essa palavra divina, - amor – fez estremecerem os povos, e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo.

Algumas pessoas ainda estranham que os Espíritos, em nome do Espiritismo, façam citação a Jesus, não compreendendo que a Doutrina Espírita é uma doutrina cristã, inserida na história do Cristianismo. Isso acontece por uma falsa apreciação que fazem do Espiritismo, não se dando ao trabalho de conhecer para criticar. Associam o Espiritismo com as comunicações dos Espíritos, acreditando que a doutrina e seus adeptos apenas tratem das manifestações mediúnicas, que misturam com crendices e folclores desprovidos de razão. A mediunidade faz parte do Espiritismo, mas não somente, e nada tem de misticismo ou de sobrenatural. O verdadeiro espírita não aceita qualquer fenômeno como provindo exclusivamente da ação dos desencarnados, e sabe que a mediunidade deve ser utilizada para a promoção do bem, cujo maior exemplo é justamente Jesus Cristo.

Quando o Mestre esteve encarnado entre nós, encontrou uma sociedade humana devastada pelas guerras de conquista e pela escravidão dos conquistados, onde prevaleciam privilégios e os direitos não eram iguais para todos. Uma sociedade em que matar o outro em defesa da honra era comum, onde usurpadores devastavam famílias inteiras, sem que a justiça os alcançasse. Os povos eram politeístas, acreditando na existência de muitos deuses, vários deles misturados com os seres humanos, e o povo judeu, único a acreditar na existência de um deus único, o tinha como sanguinário, senhor da guerra, muitas vezes injusto, confundindo a lei civil-religiosa promulgada por Moisés, com a lei divina.

Nesse contexto, Jesus encarna entre o povo judeu para trazer novos ensinos e corrigir a visão deturpada que tínhamos de Deus e da vida. Inicia por mostrar que Deus é Pai, e como pai é farto de bondade e misericórdia, sempre dando aos seus filhos a oportunidade de arrependimento e reparação; que sua justiça não é olho por olho, dente por dente, mas que solicita de cada um assumir as responsabilidades pelo que faz, portanto, dores e sofrimentos não são castigos divinos, mas apenas consequência do mal praticado por cada ser humano.

Quando perguntado sobre qual é o maior mandamento da lei divina, respondeu categoricamente que é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, estabelecendo o amor como roteiro da vida. E olhando para seus seguidores diretos, disse-lhes: meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem.

O Espiritismo veio ao mundo para resgatar em espírito e verdade os ensinos de Jesus, Como doutrina de fraternidade e solidariedade, não poderia ficar alheio ou distante daquele que é o guia e modelo da humanidade, o Espírito mais perfeito que já esteve aqui na Terra.

Sim, o amor faz os povos estremecerem, pois solapa na base o egoísmo e o orgulho, destruindo todos os preconceitos e discriminações. Somente através do amor conseguiremos viver em paz uns com os outros. Somente através do amor conseguiremos manter uma justiça social adequada à justiça divina. Somente através do amor acabaremos com as guerras e toda forma de violência.

Os mártires, o que equivale dizer os grandes líderes das nações, das religiões, das culturas, diante do amor vão descer ao circo, ou seja, terão de encarar a realidade nua e crua das consequências dos seus desmandos, do seu egoísmo, da sua indiferença, do seu materialismo, pois somos todos iguais, filhos de Deus, e a posição que ocupamos aqui é transitória, pois a vida continua depois da morte, e o apelo do “amai-vos uns aos outros” ressoará nas consciências, que sofrerão o remorso da perda do poder e o achincalhe daqueles que fizeram sofrer. Mas Deus, no seu infinito amor, recolherá essas alma em seu seio e providenciará a bênção da reencarnação, onde, no esquecimento do passado, poderão finalmente compreender o alcance e as boas consequências do amor, a palavra divina que estremece os povos e faz cair os senhores do mundo diante do Senhor da Vida.


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Demência infantil e palingenesia

Lemos na BBC News, através da internet, reportagem sobre a Doença de Niemann-Pick tipo C (NPC), classificada pela ciência como uma doença rara, de origem hereditária, neurologicamente progressiva e terminal, levando seu portador, normalmente criança na pré infância, a ter a expectativa média de vida de nove anos. A NPC, segundo pesquisas, é resultado da transmissão de duas cópias de um gene defeituoso de ambos os pais para a criança, que tem uma chance em quatro de desenvolver a doença, sendo que uma em cada cento e cinquenta mil crianças tem a doença, mas esses dados ainda são preliminares, pois carecem de maior amplitude no universo pesquisado. A NPC afeta o cérebro e o sistema nervoso da criança com a deterioração progressiva da memória, perda de equilíbrio, insuficiência pulmonar e hepática, atraso no desenvolvimento motor, perda da fala e convulsões. Não existe medicação ou tratamento, sendo que os cientistas estão estudando a possibilidade de uma terapia genética, mas os testes ainda não são conclusivos sobre sua eficácia. A NPC, junto com outras doenças assemelhadas, é classifica como demência infantil.

Ilustrando a reportagem, temos o caso de Renee Staska, australiana e mãe de três crianças, Hudson (4 anos), Holly (2 anos) e Austin (9 meses), todas já diagnosticas com a doença e apresentando, dentro de suas respectivas idades, os sintomas que acabamos de descrever, num quadro familiar doloroso e que nos inspira compaixão, pois os médicos já informaram a mãe que seus três filhos vão morrer, um após outro, e nada existe na medicina, e na ciência em geral, que possa evitar esse prognóstico. Pois bem, diante dessa fatalidade, e levando em conta nossa realidade como almas criadas por Deus, como nos é apresentado pela Doutrina Espírita, perguntamos: o que fizeram esses pais para merecer tão profunda provação? O que fizeram essas crianças para receber esse terrível destino? E ainda mais: a ciência pode alterar a destinação dessas almas? E se pode, como ficam os desígnios divinos?

Colocamos a existência da alma como ponto de partida, pois sem ela, do ponto de vista materialistas do nascer, viver e morrer, simplesmente não teríamos respostas às indagações lançadas no parágrafo anterior, tanto que os cientistas estão atônitos com o caso apresentado pelos filhos de Renee Staska, pois contrariam as leis da genética e as probabilidades de transmissão hereditária dos genes por parte dos pais. Somente a imortalidade da alma, sendo esta pré existente ao nascimento da criança, conjugada com a palingenesia (reencarnação), pode dar resposta adequada, lógica e racional, à existência da demência infantil, por enquanto doença irreversível e terminal.

Entretanto, não basta acreditar na existência da alma. É preciso ter um perfeito entendimento sobre a mesma, que é o ser individual, criado por Deus e destinado à perfeição, pré existente e também sobrevivente, pois o corpo orgânico é apenas vestimenta temporária da alma no mundo material, é seu instrumento de manifestação na dimensão física da vida. O corpo nasce, cresce e morre, não a alma, que desenvolve seu potencial divino sempre, de encarnação em encarnação, sendo imortal, ou, dizendo de outro modo, de existência material em existência material, em novos corpos, novas épocas e novas situações sociais e culturais. A alma nunca perde sua individualidade, nem perde suas experiências e aprendizados. Quando vivendo no mundo ou dimensão espiritual, a alma é conhecida como Espírito; quando vivendo no mundo ou dimensão material, é a alma propriamente. O conjunto Espíritos (que são as Almas desencarnadas) mais Almas (que são os Espíritos encarnados), formam a humanidade, pois todos somos seres humanos, como aprendemos no estudo espírita, sendo a única diferença entre os desencarnados e os encarnados, ter ou não corpo orgânico, portanto, somos Almas ou Espíritos, aqui entendidas como sinônimos.

Mas como podemos viver no mundo espiritual sem ter um corpo? Eis aqui o equívoco que muitos cometem, pois não temos apenas o corpo orgânico, somos também dotados de um corpo espiritual, que a Doutrina Espírita chama de perispírito. Esse corpo é semimaterial, bem mais flexível, molécula a molécula ligado ao corpo orgânico, desprendendo-se deste no fenômeno chamado morte, e, de encarnação em encarnação, é o perispírito responsável por modelar o novo corpo orgânico que o Espírito tomará para si na nova existência. Temos na literatura não espírita, de cunho acadêmico, com a utilização de metodologia científica e experimentação controlada, dezenas de trabalhos publicados comprovando a imortalidade da alma, a intervenção dos Espíritos no mundo físico e a reencarnação, portanto, não é apenas o Espiritismo que proclama essa verdade.

Isto posto, e considerando que as encarnações são solidárias entre si, que o que se faz numa existência acarreta consequências para outra encarnação, tanto no bem quanto no mal, conforme o que dispõe a perfeita justiça divina (recomendamos a leitura do Código Penal da Vida Futura, constante do capítulo 7 de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec), podemos agora estabelecer a melhor compreensão sobre as doenças classificadas como demência infantil, como é o caso da NPC.

Palingenesia ou lei da reencarnação

Os antigos gregos, na sabedoria de muitos de seus filósofos, já acreditavam na palingenesia, ou seja, no retorno do Espírito (ou Alma) através de um novo corpo orgânico, crença também partilhada pelo antigo povo judeu, como se pode ver em várias descrições da Torá, o livro religioso sagrado que os cristãos conhecem como Velho Testamento, assim como também encontramos essa crença entre os antigos egípcios. O próprio Jesus, base do Cristianismo, ensinava que era necessário nascer de novo, afirmando que o pregador João Batista era a reencarnação do profeta Elias. O Espiritismo não inventou a reencarnação, nem fez dela princípio exclusivo de sua doutrina, e sim a estudou através de conceituação filosófica lógica e racional, assim como a observou através dos fatos devidamente registrados e catalogados, como também o fez o Dr. Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, não espírita e autor de vários estudos, entre eles o livro Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação, que todo cientista devia conhecer.

Com a imortalidade da alma e a reencarnação temos explicação para a demência infantil, assim como para outras doenças classificadas como hereditárias ou genéticas, que eclodem durante o período infantil, ou mesmo detectadas no útero da mãe, no feto em desenvolvimento, e que já comporta a existência do Espírito, que está no comando da formação do novo corpo através do seu perispírito, lembrando que o corpo espiritual é o modelo organizador biológico, comandando todo o processo. É no perispírito que se concentram as energias mentais do Espírito reencarnante, assim, aquele que cometeu o mal em anteriores existências e tem a consciência culpada, automaticamente impregna o perispírito com essas energias, que eclodirão no novo corpo em formação, o mesmo acontecendo quando o Espírito solicita uma prova específica, que pode ser uma grave lesão ou um defeito genético.

A teoria espírita da reencarnação não invalida as leis da hereditariedade, que funcionam acima de tudo sob determinismo divino, que a ciência humana ainda não foi capaz de compreender. O caso dos filhos de Renee Staska é uma prova do que estamos falando. Para a ciência a probabilidade de todos os filhos terem a mesma doença, que é rara, é mínima, mas aconteceu, e os cientistas não sabem explicar como isso foi possível. Sem a imortalidade da alma, a reencarnação e os mecanismos de funcionamento da justiça divina, tão bem estudados pelo Espiritismo, realmente não há explicação.

No caso em apreço, entendemos que os três Espíritos portadores da doença, seja por expiação (consequência de ações que infringiram a lei divina em existências passadas), seja por prova solicitada, não estão nesse processo por acaso, mesmo porque o acaso não existe, ou seja, existem causas preponderantes que estão além dos meros fatores biológicos. Para a mãe (a reportagem nada informa sobre o pai) é uma prova que, aliás, parece estar levando a bom termo, pois a reportagem informa que está cuidando dos filhos com muito amor, tudo fazendo por eles. E aqui também entra a reencarnação, pois os vínculos afetivos entre pais e filhos não são gratuitos, normalmente remontam de ligações que vem sendo construídas ao longo de múltiplas existências.

A ciência e a justiça divina

Temos ainda sob análise a questão do progresso da ciência na pesquisa e tratamento das doenças hoje consideradas incuráveis, muitas delas levando à morte precoce, como é o caso da NPC. Até que ponto a ciência pode intervir quando se sabe que é uma expiação reencarnatória pela qual o Espírito tem necessidade de passar? Tal é a dúvida que atormenta muitos estudiosos, mas perfeitamente elucidada pelo Espiritismo, ao esclarecer que a ciência é dada ao homem para que este possa contribuir com os desígnios divinos no mundo, melhorando a qualidade de vida do ser humano e sua interação com os recursos naturais do planeta. Vejamos, a esse propósito, a resposta dos Espíritos Superiores na questão 692 de O Livro dos Espíritos:

Tudo se deve fazer para chegar à perfeição. O próprio homem é um instrumento de que Deus se serve para atingir os seus fins. Sendo a perfeição o alvo para que tende a Natureza, favorecer a sua conquista é corresponder àqueles fins.

Deve, pois, o ser humano, através da ciência, fazer todos os esforços para o progresso da vida, para o aperfeiçoamento dos conhecimentos, como a própria lei divina, que é lei de evolução, solicita. Sabemos que esse progresso é paulatino, motivo pelo qual a ciência ainda se debate com fenômenos e doenças que não consegue explicar a contento, cujas raízes estão no Espírito. A aproximação da ciência com a realidade espiritual da vida elucidará muitas doenças, que então alcançarão a devida solução, sempre de acordo com o que cada um deve enfrentar aqui na Terra, pois os desígnios divinos serão sempre soberanos, por serem perfeitamente justos.

Enquanto a demência infantil não tiver tratamento, a não ser terapia fisioterapêutica para amenização de suas consequências, doemos amor aos pais e seus filhos, na forma de orações e apoio fraterno, sabedores que o acaso não existe, e que a misericórdia divina acena para dias mais felizes, mais venturosos no porvir, para todos aqueles que se submetem com resignação e fé a essa provação, pois a vida futura nos acena, promissora, radiante, a nos dizer que aqui na Terra tudo passa, mas na eternidade vive sempre a luz eterna do amor!

Artigo publicado originaslmente na revista O Consolador, edição 849: www.oconsolador.com.br


O Espiritismo no contexto humano

 

Com o avanço científico e cultural realizado principalmente a partir do século 18, novas luzes foram acesas no conhecimento humano, permitindo que em meados do século 19 tivéssemos condições para receber a revelação espírita, após intenso trabalho de Allan Kardec junto aos Espíritos Superiores, via mediunidade, dando surgimento à obra O Livro dos Espíritos e ao consequente lançamento do Espiritismo ou Doutrina Espírita. Uma nova era tinha início, com sérias e profundas implicações na evolução humana, face a uma doutrina que une em seu edifício doutrinário a ciência, a filosofia e a religião, não apenas do ponto de vista material, mas igualmente do ponto de vista espiritual. O Espiritismo, como muito bem afirma Kardec, não é doutrina formulada pela concepção de um homem, e sim doutrina emanada dos ensinos dos Espíritos, que se revelaram através dos fenômenos mediúnicos devidamente observados e estudados, ou seja, é doutrina trazida pelos desencarnados para os encarnados, todos seres humanos, portanto, uma doutrina de ordem natural, sem nada de místico ou sobrenatural.

A finalidade maior do Espiritismo é auxiliar o progresso moral da humanidade, o que somente poderá acontecer conforme o paulatino e progressivo progresso moral dos indivíduos, pois a humanidade nada mais é do que o coletivo dos seres humanos. Não há como transformar as estruturas sociais sem transformar os homens e mulheres, pois são eles que fazem essas estruturas. Nesse contexto devemos entender a necessidade de mudanças profundas na mentalidade, no pensamento e nas ações de cada um, aqui nos incluindo, para que haja um efetivo combate ao egoísmo e ao orgulho, as duas grandes chagas da nossa sociedade.

O Espiritismo vai muito além da mediunidade, da assistência e promoção social, do passe, do tratamento espiritual, que caracterizam muitos centros espíritas. Embora sejam serviços pertencentes à ação espírita, e tenham sua importância, não resumem nem revelam em sua totalidade a doutrina trazida pelos Espíritos. Os dirigentes espíritas precisam se conscientizar da maior importância do estudo doutrinário (conhecimento e prática do Espiritismo), da evangelização da família (da criança ao adulto) e da prática do bem em todas as circunstâncias (fora da caridade não há salvação), para que as pessoas possam realizar seu melhoramento moral.

Os espíritas, em grande parte, ainda não se conscientizaram que o Espiritismo é essencialmente doutrina de educação da alma imortal, solicitando de cada um a transformação moral para que, assim transformados, possam transformar moralmente a humanidade.

Almas imortais, ou Espíritos, somos todos nós e não apenas os que se encontram desencarnados, vivendo no mundo espiritual, e que se apresentam através dos médiuns nas reuniões mediúnicas do Centro Espírita. E como seres humanos que são, apenas desprovidos do corpo material, devem revelar sua superioridade moral nas comunicações que realizam, pois do contrário não devemos levar em conta o que dizem ou o nome que utilizam. Tanto aqui na Terra quando no mundo espiritual existem os ignorantes, os malandros, os pseudo sábios, os enganadores e assim por diante, motivo pelo qual não devemos aceitar tudo o que os Espíritos dizem, devendo passar suas comunicações pelos crivos da razão, da lógica, do bom senso, da universalidade dos seus ensinos e pelos princípios que formam o Espiritismo. Não precisaríamos fazer esta advertência se estudássemos melhor a própria Doutrina Espírita, pois tudo isso está perfeitamente assinalado por Kardec nas obras da codificação espírita.

Muitos espíritas ainda consideram o Espiritismo no rol das revelações messiânicas salvacionistas, fazendo do Centro Espírita uma simples igreja para frequência ritualística, onde recebem as benesses espirituais, sem, entretanto, mudar uma vírgula das suas concepções, dos seus valores e das suas ações no mundo. Não entenderam que a moral espírita não é de fachada, é, pelo contrário, substancialmente interior, exigindo de cada adepto a sua transformação através de esforços contínuos para combater suas más tendências de caráter e desenvolver suas virtudes, único caminho para ter um encontro com a verdadeira felicidade, seja neste mundo ou após a morte, como consequência mesmo desses esforços, e não como uma dádiva celestial especial que não pode ser concedida a quem não a merece. Como nos diz Pedro de Camargo, o saudoso Vinicius, fora da educação não há salvação, estando aqui entendido que falamos da educação moral, como bem estabelecido por Kardec no comentário que faz à resposta dos Espíritos na questão 685a, em O Livro dos Espíritos.

O Espiritismo lança luzes em todas as áreas do conhecimento humano. Se tivesse limites, fronteiras bem marcadas; se se circunscrevesse, por exemplo, à mediunidade, não poderia ter como finalidade a transformação moral de humanidade. Diante disso, não é concebível que os centros espíritas realizem semanalmente apenas uma reunião de palestra pública, uma reunião mediúnica e pouca coisa mais, passando boa parte dos seus dias com as portas fechadas, muitas vezes não tendo grupos de estudo da doutrina e/ou evangelização das crianças e dos jovens, ainda confundindo a caridade com a mera distribuição mensal de cestas de alimentos aos mais pobres, que caracteriza o assistencialismo, sem realizar a promoção social, tão necessária.

Tanto o Espiritismo quanto o Centro Espírita estão situados no contexto humano, no seu caldo cultural, devendo influenciar a cultura materialista que ainda predomina, para que possam os homens e as mulheres adentrarem à sua realidade espiritual, quando terão possibilidade de alterar os runos da humanidade.

Repetimos: em sua essência o Espiritismo é doutrina de educação. Revive o Evangelho em espírito e verdade; demonstra através dos fatos a vida futura após a morte; descortina nosso potencial divino; explica as causas das dores e dos sofrimentos; vislumbra a lei de evolução, mostrando que somos seres perfectíveis em progresso. Tudo isso com bases científicas, filosóficas e de consequências morais como nunca se vira antes na história humana, convidando-nos para o voo da alma, aqui e agora, na transcendentalidade que nos pertence. Está na hora, na verdade desde 1857, dos espíritas cumprirem a missão dada ao Espiritismo, educando-se, transformando-se, para educar e transformar a sociedade humana, levando nosso mundo terreno à categoria de mundo de regeneração, como revelado pelos Espíritos no capítulo terceiro de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Artigo publicado originalmente na revista O Consolador, edição 848: www.oconsolador.com.br

Escola Espírita Joanna de Ângelis

Situada no município de Japeri, no estado do Rio de Janeiro, há 45 anos a Escola Espírita Joanna de Ângelis atua para transformar pela educ...