Recebemos notícias sobre palestrantes espíritas que estariam cobrando para comparecer a eventos do movimento espírita, o que nos leva a fazer esta abordagem. Não teceremos juízo sobre esta ou aquela pessoa, nem quanto aos motivos, atendo-nos exclusivamente à questão se é lícito ou não cobrar para fazer uma palestra ou um seminário. Também não vamos entrar no mérito dessas informações serem falsas ou verdadeiras, levando em consideração, pelo menos em princípio, da boa fé de uns e de outros. Afinal, e essa é a pergunta que deve ser feita, para fazer uma palestra na reunião pública de um centro espírita fora do seu domicílio, ou para falar num evento do movimento espírita, o palestrante espírita pode cobrar um valor qualquer, a título de remuneração?
Iniciemos fazendo uma distinção muito importante. Não podemos confundir o reembolso das despesas de viagem do palestrante com remuneração profissional. Ao convidar um palestrante de fora, de outra cidade ou estado, é de bom tom que quem convida assuma as despesas de transporte, hospedagem e alimentação do mesmo, que não tem nenhuma obrigação de bancar esse custo, que em verdade não lhe pertence, e que mesmo tendo toda boa vontade, nem sempre pode assumir. Reembolso de despesa de viagem é uma coisa, remuneração profissional é outra coisa.
As notícias dão conta que os palestrantes que fazem cobrança remunerada, alegam que, em verdade, almejam apenas uma contrapartida para a perda de remuneração profissional que teriam, por conta das horas despendidas para cumprir o compromisso espírita, o que lhes impediria o exercício profissional. A alegação parece justa, principalmente para quem é profissional liberal, e é justamente neste ponto que devemos entender se é lícito ou não cobrar por uma palestra no movimento espírita.
Ao lembrarmos que Jesus nos disse para dar de graça o que de graça recebemos, muitas pessoas entendem que isso só deve ser aplicado ao exercício da mediunidade, entretanto, precisamos olhar com maior profundidade a aplicação desse ensino, pois a vida mesma nos é dada de graça por Deus, e necessitamos agradecer do fundo de nossa alma ter a oportunidade do encontro com o Espiritismo na atual existência, encontro esse que nos possibilita um novo viver, reparando o mal que fizemos no passado, ao mesmo tempo em que construímos a própria felicidade.
Allan Kardec nos deu o exemplo sobre o que devemos fazer. Sempre trabalhou gratuitamente pela divulgação do Espiritismo, tocando sua vida pessoal e familiar apenas e tão somente com os proventos de sua aposentadoria e rendas advindas do seu esforço de anos de trabalho profissional, não misturando o movimento financeiro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas com as suas finanças pessoais.
Na famosa viagem de palestras realizada no ano de 1862, para divulgação do Espiritismo, ele o fez às expensas dos espíritas das várias cidades por onde passou, que o convidaram fraternalmente e assumiram as despesas. Kardec ainda solicitou que todo excedente da arrecadação financeira realizada para cobrir as despesas dos eventos, fosse doada aos mais necessitados das respectivas cidades.
Diante do exemplo de Kardec, na aplicação da máxima “dai de graça o que de graça recebestes”, que o Cristo nos trouxe, podemos concluir que não é lícito cobrar para realizar palestra no movimento espírita, devendo o palestrante espírita, seja qual for sua profissão, adequar sua agenda para manter equilíbrio entre seus compromissos profissionais e familiares, com os compromissos doutrinários, lembrando que ninguém que tenha abraçado a Doutrina Espírita, é obrigado a assumir compromissos de divulgação da mesma. Abrir e manter uma agenda de palestras junto ao movimento espírita é decisão individual no uso do livre arbítrio, e caso decida por isso, deve o palestrante espírita trabalhar com amor e desprendimento de si mesmo, pois a causa do Espiritismo deve estar acima de qualquer outro interesse.
O Espiritismo está no mundo para proceder à transformação moral das pessoas que, assim transformadas, transformarão moralmente a humanidade. Divulgar o Espiritismo é compromisso da consciência desperta para a imortalidade da vida, visando um futuro melhor para todos, motivo pelo qual no movimento espírita não temos sacerdócio, sendo os dirigentes dos centros espíritas e das federativas espíritas, colaboradores voluntários, inexistindo remuneração, pois isso é vedado pelos respectivos estatutos legais, obedecendo a legislação pertinente.
Não é cabível, diante desse entendimento e do exemplo dado por Allan Kardec, que agora queiramos ser remunerados a qualquer título, para fazer a divulgação do Espiritismo, consolando os corações e esclarecendo as mentes, mesmo porque o Espiritismo é doutrina emanada dos Espíritos, os verdadeiros autores dos seus princípios e de todo o seu edifício doutrinário, não nos cabendo tomar o lugar deles na consecução da obra, mas sim trabalhar com humildade na sua divulgação.
A figura do profissional espírita é inadmissível, sendo uma aberração que devemos afastar veementemente das fileiras doutrinárias, cabendo ao espírita manter sua vida pessoal e sua vida doutrinária em perfeito equilíbrio, sem prejudicar nem uma nem outra, sabedor que está, acima de tudo, a serviço do Cristo pelo bem da humanidade.