segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Suspender, Expulsar Prender

A escola possui certas tradições que podem ser questionadas, mas que estão incorporadas ao fazer pedagógico como se fossem normais. Exemplo disso é tirar o aluno da sala de aula. Várias causas justificam essa atitude: porque ele estava fazendo bagunça; porque não estava prestando atenção na aula; porque desrespeitou a professora; etc. Se o tirar da sala de aula não resolver, ou seja, se o aluno não se "emendar" e passar a obedecer as regras, ele é encaminhado para a Diretoria, que providenciará uma advertência e uma boa conversa com os responsáveis. Se isso também não resolver, é dado mais um passo para disciplinar o aluno: suspensão. Assim, ele ficará dois ou três dias fora da escola, para ver se pensa um pouco e volta melhor. Contudo, se o aluno continuar desrespeitoso, agressivo, bagunceiro, falando palavrões, ameaçando colegas e professores, com comportamento e atitudes consideradas graves, uma nova tradição é utilizada: chama-se a polícia e lá vai o aluno para a delegacia. Neste momento a escola tenta uma intervenção pseudo-educacional: solicitar aos pais a transferência do aluno-problema para outra escola. Então, e finalmente, se nenhuma dessas ações derem o desejado resultado, aciona-se a prerrogativa da expulsão. O aluno está fora da escola, banido como pessoa indesejável.

Passeando o olhar pelo dicionário, descobrimos que escola é estabelecimento de ensino. Nessa definição não há nenhuma ressalva sobre quem deve aprender, levando-nos a supor que são todas as crianças e jovens regularmente matriculadas. Mas essa é uma definição dicionarista, pois, na verdade, numa definição mais pedagógica, escola é o instituto social de educação dos indivíduos que formam a coletividade. É parceira da família e da sociedade, devendo saber trabalhar com as diferenças, com a singularidade de cada indivíduo.

Na medida em que a escola institucionaliza a retirada da sala de aula, a advertência, a suspensão, o fichamento policial e a expulsão, ela demonstra, como fato, sua falência enquanto instituto social de educação.

A escola está tão preocupada em disciplinar, ensinar conteúdos, preparar para o mercado de trabalho, fazer com que o aluno tenha condições de passar em concursos e excluir os alunos "difíceis", que desumanizou o ensino e colocou na lata do lixo a educação.

Educar e ensinar com amor é possível e temos exemplos maravilhosos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Uma leitura da seção "Experiências Que Dão Certo", da revista eletrônica ReConstruir - www.educacaomoral.org.br/reconstruir - dá bem a dimensão desse universo de uma boa prática pedagógica com excelentes resultados.

É urgente humanizar a escola. Colocar o amor como base do processo educacional.

Advertir, suspender, expulsar ... Isso é ranço de uma prática tradicionalista medieval. É caminhar na contramão do verdadeiro processo de educação.

Pensemos nisso!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Menor que o Salário Mínimo

Recentemente os professores tiveram um ganho há muito reivindicado: a criação do Piso Nacional de Salário, hoje de R$ 950,00. Contudo, mais da metade dos estados e municípios brasileiros não obedece a lei federal, e mais de 50% dos professores ganha menos de R$ 720,00, com agravante na região Nordeste, onde metade do professorado recebe salário menor que R$ 450,00. Essas e outras revelações estão no estudo "Professores do Brasil: Impasses e Desafios", publicado pela Unesco.

Como 79% dos professores são do poder público, a solução implica em maior volume orçamentário, melhor articulação política entre as esferas governamentais (federal, estadual, municipal), continuidade da política nacional de salários e mobilização da categoria para garantir seus direitos e conseguir também uma plano decente de carreira.

O estudo da Unesco também toca em outra grave questão: os cursos de licenciatura não ensinam a ensinar. Há professores que não aprendem na faculdade a alfabetizar uma criança. Nos cursos de pedagogia o máximo encontrado em prática de ensino é da ordem de 10% do currículo, muito pouco para quem está sendo formado para trabalhar em sala de aula.

Não podemos dizer que as conclusões do estudo sejam novidade. Pelo contrário, há décadas fala-se das péssimas condições de trabalho dos professores da educação básica (ensino infantil, fundamental e médio): baixos salários; escolas desaparelhadas; falta de plano de carreira; má formação pedagógica. Tudo o que o estudo da Unesco revela é denunciado pela mídia e pelos próprios professores há muito tempo.

E podemos adicionar mais um agravante: o magistério desvalorizado está desumanizando o ensino. E mais: perdeu-se o verdadeiro sentido da educação, substituída pelo ensinar conteúdos e preparar para concursos e vestibulares. Isso é instrução, que faz parte da educação, mas não é a educação.

É fato que estados e municípios possuem autonomia, mas responder positivamente aos esforços do governo federal em melhorar as condições do magistério, é política que fomenta no presente um futuro bem melhor. A verdade é que um remanejamento orçamentário, colocando a educação como prioridade, faria com que a maioria dos professores já estivesse recebendo o piso nacional.

Basta uma pesquisa na Internet, nos sites oficias das prefeituras, para verificar que muitas sequer possuem uma Secretaria de Educação, ou, quando ela existe, é facilmente nublada pelos setores de obras, transportes, imposto territorial, que dominam as notícias e chamadas oficiais.

Enquanto o professor for considerado o último dos seres humanos, e a educação relegada a segundo plano, continuaremos a ter inúmeros problemas sociais, que jamais serão solucionados com segurança pública, postos de saúde, avenidas, estradas, água e esgoto. Tudo isso é importante, mas colocados nas mãos de pessoas sem o mínimo de educação, ou mal educadas, terão efeito efêmero, constituindo-se em mais problemas em futuro próximo.

Educar ou educar, não há outra alternativa. Para isso, entre outros fatores, pagar bem o professor e ter uma boa escola, fazem parte dos esforços urgentes de termos a sonhada educação de qualidade.

Pensemos nisso.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Muito Pais Não Têm Esta Paciência

Recebi um vídeo muito interessante, e para fazer pensar, mostrando uma criança com aproximadamente dois ou três anos de idade brincando com um cão, e fazendo de tudo com ele. O cachorro mostra-se extremamente paciente, não reclama, trata o garoto com amabilidade e acompanha-o por todos os cantos. E o menino sobe nele, deita sobre seu corpo, mexe em seu focinho, dá e puxa gravetos de sua boca, enfim, não poupa o cão, que mesmo assim participa de tudo e em nenhum momento reclama. O vídeo tem o sugestivo nome de "Muitos Pais Não Têm Esta Paciência".

É verdade. Muitos pais se aborrecem com seus filhos com facilidade, e normalmente reagem com violência. Não tem paciência para responder a mesma pergunta várias vezes, esquecendo que criança é assim mesmo. Isso me remete a outro belo vídeo recebido dos meus amigos internautas, mostrando um senhor idoso sentado no banco de uma praça ao lado de sua casa. Com ele está um jovem, seu filho, lendo um jornal. Vendo pássaros voarem e pousarem nas plantas e gramado, o velho pergunta várias vezes: o que é isso? O filho, cada vez mais irritado, vai respondendo: é um pássaro! Até que "explode", grita com o velho pai e diz que está cansado de responder a mesma coisa.

O velho sai, entra em casa e retorna com um diário surrado, aberto numa determinada página, e pede ao filho que leia em voz alta. Está escrito: "Hoje meu pequeno filho me perguntou vinte e uma vezes a mesma coisa, e eu respondi pacientemente vinte e uma vezes que era um pássaro". A cena termina com o filho, sensibilizado e chorando, dando um sentido abraço em seu velho pai.

Educar é um ato de amor e exige compreensão e paciência.

Não se pode educar com irritabilidade, xingamentos, bofetadas, palmadas, castigos físicos e pressão psicológica. Essas coisas geram frustrações, inibições, rebeldia, ou seja, complicam o relacionamento entre pais e filhos.

Para bem educar nada melhor que o diálogo, a explicação paciente, a troca de responsabilidades, a participação doméstica e, fundamental, o bom exemplo. Esse conjunto de ações forma a educação de qualidade que os pais devem exercer com seus filhos, pois o amor não é tolerante a ponto de deixar tudo acontecer. Pelo contrário, compete ao amor disciplinar, orientar, exigir, mas sempre de forma participativa, mostrando que direitos e deveres, liberdades e responsabilidades andam de mãos dadas.

Para medir seu grau de paciência para com os filhos, observe se você consegue responder a mesma pergunta, ou explicar a mesma coisa, repetidamente, cinco vezes, sem aumentar o tom de voz, sem mostrar irritação, impaciência.

Se você consegue, parabéns, está no bom caminho para bem educar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Conteúdo e singularidade

Para entender a abordagem que vou fazer neste texto, é melhor, primeiro, ler o que disse Leo Buscaglia, em seu livro "Vivendo, Amando e Aprendendo":

“Talvez a essência da educação não seja entupir os jovens de fatos, e sim ajudá-los a descobrir a sua singularidade, ensinar-lhes a desenvolvê-la e depois mostrar-lhes como doá-la. Nenhum professor jamais ensinou alguma coisa a alguém. As pessoas aprendem por si. Como professores temos que acreditar na mudança, temos que saber que é possível, do contrário não estaríamos ensinando, pois a educação é um constante processo de modificação. Há uma mesa cheia de maravilhas. A educação é o processo de levar as pessoas a ela. Você pode enfeitar a mesa, não pode obrigar ninguém a comer. Todo mundo ensina a todo mundo, o tempo todo, o que são e quem são. Por isso é que todo mundo é professor. Como pessoa afetuosa, é bom você ter muito, muito cuidado com os rótulos que põe nos outros”.

Concordo com ele. Não temos que entupir os jovens de fatos, de informações, de conteúdos curriculares quem nem mesmo o professor sabe direito para que servem. Temos que ajudar os jovens a se descobrirem como pessoas, a desenvolver seus potenciais e como eles podem, maravilhosamente, doar de si para o bem da coletividade. Fatos, informações e conteúdos formam o ensinar, nem sempre ligado ao educar, que é tornar humano, a partir da singularidade, ou seja, da individualidade única do estudante.

Professor que não acredita na transformação (mudança) do aluno, não é professor. É um lesa-individualidade que deveria retirar-se da escola, abandonar o magistério e dedicar-se a outra profissão. Ele pode ser um bom vendedor de cachorro-quente, mas não é um bom professor. E o professor precisa gostar do que faz, acreditando em si e nos seus alunos, acreditando na educação.

De fato, professores nada ensinam a seus alunos. O aluno aprende porque quer, porque apreende os significados, porque se sente estimulado a descobrir e criar. Não existe cátedra, existe facilitação da aprendizagem.

O exemplo de Leo Buscaglia é significativo. Posso enfeitar a mesa e colocar alimentos maravilhosos, saborosos à disposição de todos. Mas os convidados só se deliciarão com as iguarias se quiserem. Não posso obrigá-los a comer o que não querem. Sequer posso obrigá-los a se alimentar. Mas posso incentivá-los, estimulá-los, e colocar na mesa as iguarias que efetivamente gostem, e não aquelas que são do meu gosto.

Conheço um professor que, invariavelmente, dá suas aulas recheadas de slides. Fala muito a cada slide, e, normalmente, produz mais slides do que o tempo de aula permite utilizar. Os alunos saem sempre frustrados. Não conseguem dialogar, perguntar e nem assistir toda a apresentação. É sempre assim. Esse professor não sabe trabalhar a singularidade, a individualidade dos estudantes, não sabe tocar o ser humano que está ali. Ele não acredita na transformação, mas apenas na formatação, o que é bem diferente.

Posso ter um bom currículo e conteúdos variados, mas se não sonhar, se não criar, se não entender que não estou ali para ensinar, e sim para fazer pensar, para estimular o aprendizado, estarei somente entupindo meus alunos com fatos.

Tornar as pessoas mais humanas, conscientes de si e de sua participação social, a partir do respeito à sua individualidade única, dando-lhes visão profunda do ser e da vida, é realizar a educação, aprendendo com quem está aprendendo, caminhando junto com quem está na caminhada para chegar onde já chegamos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Um texto lindo, para refletir

Compartilho com meus amigos e amigas o lindo texto abaixo, recebido por e-mail. Não sei quem é o autor, nem mesmo se a história é verdadeira, mas, será isso o mais importante?

No Brooklyn, Nova Iorque, Chush é uma escola que se dedica ao ensino de crianças especiais. Algumas crianças ali permanecem por toda a vida escolar, enquanto outras podem ser encaminhadas para uma escola comum..

Num jantar beneficente de Chush, o pai de uma criança fez um discurso que nunca mais seria esquecido pelos que ali estavam presentes.

Depois de elogiar a escola e seu dedicado pessoal, perguntou:

- “Onde está a perfeição no meu filho Pedro , se tudo o que DEUS faz é feito com perfeição? Meu filho não pode entender as coisas como outras crianças entendem. Meu filho não se pode lembrar de fatos e números como as outras crianças. Então, onde está a perfeição de Deus?”

Todos ficaram chocados com a pergunta e com o sofrimento daquele pai, mas ele continuou:

- "Acredito que, quando Deus traz uma criança especial ao mundo, a perfeição que Ele busca está no modo como as pessoas reagem diante desta criança.”

Então ele contou a seguinte história sobre o seu filho Pedro :

- “Uma tarde, Pedro e eu caminhávamos pelo parque onde alguns meninos que o conheciam estavam jogando beisebol. Pedro perguntou-me:"

- "Pai, você acha que eles me deixariam jogar?"

Eu sabia das limitações do meu filho e que a maioria dos meninos não o queria na equipe. Mas, entendi que se Pedro pudesse jogar com eles, isto lhe daria uma confortável sensação de participação. Aproximei-me de um dos meninos no campo e perguntei-lhe se Pedro poderia jogar. O menino deu uma olhada ao redor, buscando a aprovação de seus companheiros de equipe e mesmo não conseguindo nenhuma aprovação, ele assumiu a responsabilidade e disse:

- "Nós estamos perdendo por seis rodadas e o jogo está na oitava. Acho que ele pode entrar na nossa equipe e tentaremos colocá-lo para bater até a nona rodada".

Fiquei admirado quando Pedro abriu um grande sorriso ao ouvir a resposta do menino. Pediram então que ele calçasse a luva e fosse para o campo jogar. Na oitava rodada, a equipe de Pedro marcou alguns pontos, mas ainda estava perdendo por três. Na nona rodada, a equipe de Pedro marcou novamente e agora com dois fora e as bases com potencial para a rodada decisiva, Pedro foi escalado para continuar. Uma questão, porém, veio à minha mente: a equipe deixaria Pedro , de fato, rebater nesta circunstância e deitar fora a possibilidade de ganhar o jogo? Surpreendentemente, foi dado o bastão a Pedro . Todo o mundo sabia que isto seria quase impossível, porque ele nem mesmo sabia segurar o bastão. Porém, quando Pedro tomou posição, o lançador se moveu alguns passos para arremessar a bola de maneira que Pedro pudesse ao menos rebater. Foi feito o primeiro arremesso e Pedro balançou desajeitadamente e perdeu. Um dos companheiros da equipe de Pedro foi até ele e juntos seguraram o bastão e encararam o lançador.

O lançador deu novamente alguns passos para lançar a bola suavemente para Pedro . Quando veio o lance, Pedro e o seu companheiro da equipe balançaram o bastão e juntos rebateram a lenta bola do lançador. O lançador apanhou a suave bola e poderia tê-la lançado facilmente ao primeiro homem da base, Pedro estaria fora e isso teria terminado o jogo. Ao invés disso, o lançador pegou a bola e lançou-a numa curva, longa e alta para o campo, distante do alcance do primeiro homem da base.

Então todo o mundo começou a gritar: “Pedro corre para a primeira base, corre para a primeira. ”Nunca na sua vida ele tinha corrido... mas saiu disparado para a linha de base, com os olhos arregalados e assustado. Até que ele alcançasse a primeira base, o jogador da direita teve a posse da bola. Ele poderia ter lançado a bola ao segundo homem da base, o que colocaria Pedro fora de jogo, pois ele ainda estava correndo. Mas o jogador entendeu quais eram as intenções do lançador, assim, lançou a bola alta e distante, acima da cabeça do terceiro homem da base. Todo o mundo gritou:

- “Corre para a segunda, Pedro, corre para a segunda base.”

Pedro correu para a segunda base, enquanto os jogadores à frente dele circulavam deliberadamente para a base principal. Quando Pedro alcançou a segunda base, a curta parada adversária colocou-o na direção de terceira base e todos gritaram:

-“Corre para a terceira.”

Ambas as equipes correram atrás dele gritando:

- “Pedro, corre para a base principal.”

Pedro correu para a base principal, pisou nela e todos os 18 meninos o ergueram nos ombros fazendo dele o herói, como se ele tivesse vencido o campeonato e ganho o jogo para a equipe dele.

- "aquele dia, disse o pai, com lágrimas caindo sobre face, aqueles 18 meninos alcançaram a Perfeição de Deus. Eu nunca tinha visto um sorriso tão lindo no rosto do meu filho!”

Para refletir: Todos precisamos parar alguns momentos para pensar naquilo que é realmente importante na vida. A amizade e a solidariedade nunca sairão de moda.

Basta querermos!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A vergonhosa fábrica de ensino

Assistimos reportagem em programa televisivo, mostrando as incorreções gramaticais de alunos e professores das escolas públicas em provas, testes e redações, tanto do vestibular quanto do ensino fundamental e médio. Simplesmente uma vergonha! Textos sem nexo, respostas fora do contexto, palavras com grafia errada, erros de concordância verbal. E não critiquemos apenas os estudantes, pois os professores também estão de mal a pior.

A constatação da reportagem é que estamos diante de um gigantesco universo de analfabetos funcionais nas salas de aula das escolas públicas. São analfabetos ensinando analfabetos. Entretanto, os analfabetos que ensinam têm diploma universitário. Os analfabetos que são ensinados já alcançaram o ensino médio ou realizam o vestibular para o ensino superior. E o governo federal insiste em reservar 50% das vagas das universidades para alunos das escolas públicas!

Percebemos com clareza que não há preocupação com a qualidade, a não ser no discurso. Continuamos a ensinar mal, formar mal, educar mal na escola pública, e queremos impor, por lei, a entrada de um grande contigente de jovens despreparados na universidade. É um absurdo! O sistema público de ensino brasileiro pode ser comparado a uma empresa que não se preocupa com o controle de qualidade dos seus produtos. Tudo vai para o mercado, do jeito que estiver, e as queixas se avolumam e a empresa começa a perder mercado, até encontrar a falência e fechar as portas. A diferença está em que o ensino público brasileiro, mantido pelas verbas governamentais, por mais degradado esteja, nunca fechará as portas, continuando a alimentar o mercado com homens e mulheres que mal sabem interpretar um texto, quanto mais redigir um com correção.

Ora, se você não sabe interpretar um texto, e não sabe redigir um texto, é claro que sua leitura de um livro estará imensamente prejudicada. Os olhos passeiam pelas letras, mas a mente não consegue decodificar a mensagem. Então, o que acontece? A reprovação técnica de dezenas de cursos universitários no âmbito do ensino superior; o não preenchimento de vagas especializadas nas empresas; etc, etc.

Quando vemos movimentos como o Todos pela Educação, e o governo se comprometendo com as metas ali traçadas, e nos deparamos com a realidade dura do analfabetismo funcional nas escolas, sentimos que entre o discurso e a prática existe um abismo, e que poucos esforços estão sendo feitos para a construção da necessária ponte.

Melhorar a qualidade do ensino público é urgente. Se isso não for feito a curto e médio prazo, assistiremos a deterioração implacável das universidades junto com o crescimento da legião de miseráveis e subempregados em nosso país, apesar dos esforços em melhorar a distribuição de renda.

Pensemos nisso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Humanização do educar

Entre as reflexões que devemos fazer sobre o ato de educar, que alguns insistem em entender apenas como ato de ensinar, está a questão da humanização. Não apenas a humanização do ensino, ou mesmo da filosofia do educar, mas a humanização do educador, que, infelizmente, é visto pela maioria como um profissional do ensino, e não como mestre, um mero professor de conteúdos disciplinares, e não um orientador do crescimento moral da criança e do jovem.

Muito bem vislumbrou essa questão o educador Paulo Freire:

“A ação de um educador humanista, revolucionário, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido da doação, da entrega do saber. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador. Isso tudo exige dele que seja um companheiro dos educandos, em suas relações com estes”.

Humanizar revela o acreditar. Sem a crença no homem, no seu potencial e na sua transformação, não é possível estabelecer o processo de humanização. Se o educador entra na sala de aula rotulando os educandos: quem vai aprender, quem não vai aprender; quem é inteligente, quem não é inteligente; quem merece elogios, quem não merece; quem deve receber boa nota, quem não deve e assim por diante, ele estará demonstrando sua frieza e indiferença, e quem é frio e indiferente, mecânico e repetitivo, não pode humanizar, pois não conseguirá dar o que não tem.

O primeiro ato da humanização é trabalhar a própria sensibilização do ser. Sentir a si mesmo é pré requisito para sentir o outro. O segundo ato é acreditar em si mesmo. Quem acredita em seu potencial adquire condições de acreditar no potencial do outro.

Tem razão Paulo Freire quando fala que a educação não é um ato de entrega do saber. Esse ato é historicamente repetido, fazendo da escola um ambiente gelado, não criativo, indiferente ao que é e quer o educando. Assim, entendemos que educação é estimular, é fazer pensar, é dar espaço para a criatividade. é desenvolver o senso moral, é fazer crescer a criticidade, é humanizar, tornar sensível para a solidariedade.

O ato de educar verdadeiro existe quando educador e educando interagem, são companheiros de viagem, olham nos olhos e eles brilham.

Quando educador e educando gostam de repartir o saber, pensar sobre o saber e agir com esse saber, temos a educação e, automaticamente, a humanização do educar.