O desvio do Enem: de avaliação para vestibular

Assistimos o sucateamento e banalização do ensino brasileiro através da desfiguração do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que, em definitivo, tornou-se um vestibular para o ensino superior, com toda pompa e circunstância, como diziam os nobres imperiais.

Já não se disfarça essa banalização. As notícias e reportagens por toda a mídia revelam que as escolas levaram para a sala de aula o espírito e os métodos dos antigos cursos pré-vestibulares, e que muitos alunos, inclusive da rede pública de ensino, se valem dos chamdos cursos preparatórios para reforço do estudo, cursos esses que já se prepararam para contemplar esse novo filão de mercado.

O Enem está em desvio de função, não serve mais para a finalidade a que foi criado, que era o de avaliar a evolução dos estudantes desse segmento de ensino. Agora as notas valem para garantir vaga nas faculdades, ou seja, nos cursos universitários, e o exame tornou-se uma máquina famigerada engolidora do ensino e destruidora da educação. Os adolescentes são devorados sem cerimônia pelo estresse, acúmulo de matérias, estudos intermináveis, memorizações, numa luta desenfreada pela conquista de uma vaga no ensino superior.

E o grande pai, ou seja, o Ministério da Educação, a tudo assiste complacente e, pior, incentivando tal absurdo. Triste fim de um teste que deveria avaliar, como ferramenta para melhora contínua do ensino médio, e que se vê desfigurada, agora servindo apenas como vestibular para outro segmento de ensino.

Não vamos aqui discutir os interesses que estão por trás desse acontecimento. As consciências responsáveis haverão de entender a situação de derrocada a que chegamos, mais cedo ou mais tarde, quando haveremos de corrigir esse desvio e realizar avaliações decentes e pedagogicamente mais corretas.

A continuarmos desse jeito, que adianta homenagear Paulo Freire? Ou realizar encontro internacional de práticas pedagógicas inovadoras? Se o discurso não é acompanhado pela prática, é como navegarmos para afundar ao largo, sem chegar ao porto.

Acudam os deuses da educação, para que não percamos o rumo em definitvo.

Comentários

marco vieira disse…
Quando um aluno me pergunta "professor por que não usas livro didático?" Eu respondo "Porque valorizo o conhecimento". Dou-lhes a oportunidade de conhecer além dos livros e compartilho de minhas experiências na academia quando formando, na sala dos professores quando colega, na vida real quando cidadão... e lhes digo ainda" trabalho com ser humano que pensa, age e se emociona diferentemente".
Outro dia criei com a gurizada uma fábrica de absorventes íntimos femininos e a fizermos dar lucros, tal que um dos alunos se emocionou pois iria ser o vendedor externo e fazer demonstrações do produto. Outro de mais de 39 anos me contou como sonega impostos na empresa em que é funcionário. Outra tinha uma hp12c nas mãos e se empolgava se visualizando em um curso de ciências contábeis. Uma álgebra brava que com a nota fiscal da compra do meu notebook fez os alunos babarem.
O emocionante não é a demanda do ENEM ou os índices governamentais, mas sim que naquela aula o aluno mais dorminhoco da sala não sentiu sono.
A valorização da educação passa pelo quanto o docente valoriza o conhecimento a porto de torná-lo instrumento de trabalho e transformação fazendo os alunos pensarem.
O barato é dizer "Você consegue sozinho!" ficar torcendo e vibrar quando ele consegue e completar com "Você é mais inteligente do que pensa."
Se meu aluno se formar em uma universidade á distância e gostar do que faz, e ainda ser uma pessoa esforçada será completamente feliz e útil para a sociedade.

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