segunda-feira, 31 de maio de 2021

A ética e a paz na escola

Aguardo com alegria o dia em que as crianças aprendam na escola os princípios da não-violência e da resolução pacífica de conflitos, ou seja, a ética secular.”

São palavras do Dalai Lama, a quem muito respeitamos e temos sincera admiração, e que endossamos, pois aprender a não ser violento, aprender a resolver pacificamente os conflitos, aprender a viver plenamente a ética da convivência cooperativa, são aprendizados essenciais que as crianças precisam desenvolver, trabalho educacional que pertence tanto à família quanto à escola.

Hoje aprende-se muitas coisas na escola, e todo aprendizado é importante, mas é um aprender atrelado ao desenvolvimento da inteligência, quando precisamos tanto dos valores humanos para direcionar esse conhecimento para o bem estar coletivo. Pensar no outro como um ser humano igual a nós, com os mesmos direitos, e pensar na natureza como bem estar para a sociedade humana, não se pode fazer isso sem conexão com a ética. Inteligência não acompanhada da ética é porta aberta para a violência, a guerra, a destruição planetária, como temos assistido ao logo dos últimos séculos.

A escola, por ser instituição oficializada de educação presente em todo o mundo, precisa trabalhar o desenvolvimento da ética e dos valores humanos junto às crianças e aos jovens, agregando a esse trabalho a família e a comunidade, pois não se pode pensar em educação sem uma visão integral do ser e da vida.

O século 20 foi marcado por muita violência, muitas guerras, muita destruição, muito sofrimento. Infelizmente não ouvimos as vozes de Albert Schweitzer, Mahatma Gandhi e do Dalai Lama, mas é hora de fazermos do século 21 um mundo melhor, mais pacífico e solidário. Não podemos, é fato, voltar na história para refazê-la, mas podemos começar a fazer diferente hoje, no presente, para garantirmos no futuro uma humanidade cooperativa e em paz.

Sonho com o dia em que a escola deixará de priorizar as disciplinas curriculares da matemática, da história, da geografia, da biologia, da língua portuguesa e outras, para priorizar a ética, a cultura da paz, a mediação de conflitos, a solidariedade, a autonomia responsável, o pensamento coletivo. E não precisamos introduzir a religião na escola para alcançar esse sonho de forma prática. Precisamos introduzir a ética, mas não através de debates filosóficos, mas sim entendida como necessária para nos compreendermos como irmãos, afinal somos todos seres humanos, e é isso o que deve prevalecer.

As dificuldades sociais, econômicas, políticas serão resolvidas quando iniciarmos o trabalho interior de nos educarmos na ética. A solução não é exterior, embora a escola tenha uma grande contribuição a dar nesse sentido. Se queremos melhorar o mundo temos primeiro que nos melhorar, como já afirmava Gandhi. A sociedade humana é o conjunto dos seres humanos, portanto, refletirá sempre, em maior escala, os valores que regem a vida de cada indivíduo, de cada pessoa, por isso que o trabalho primeiro é o de nos transformarmos, de revermos nossos valores, de pensarmos nos nossos comportamentos. Esse deve ser o trabalho prioritário da escola enquanto instituto social de educação.

Se tivermos gerações que saibam meditar, pensar, refletir e agir respeitando o outro, teremos, sem dúvida, um mundo melhor. Vamos então entender que não é a corrida armamentista solução para a violência. A solução está na ética, na colaboração e na gratidão à vida.

Como o Dalai Lama expressou, também sonho com o dia em que teremos na escola a prática da não-violência e a cultura da paz regendo a formação das novas gerações.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

A educação deve libertar

Quando falamos da realização de um curso para professores, ou quando nos debruçamos sobre um programa de estudos para os alunos, normalmente partimos do nosso conhecimento adquirido ao longo de estudos e experiências práticas, para definir os conteúdos que serão estudados pelos professores ou pelos alunos. Essa é uma tendência muito forte em todos nós educadores, mas uma tendência que nos leva muitas vezes apenas a ensinar conceitos, nem sempre do interesse daqueles que vão participar conosco do processo educativo. Por exemplo, podemos eleger o tema Desenvolvimento Psicogenético da Criança e fazer uma palestra sobre o mesmo, mas estaremos apenas falando de conceitos, sem levar em conta a realidade vivencial do nosso público. Assim, na melhor prática educacional, devemos antes solicitar aos professores, ou aos alunos, conforme o caso, que elejam suas demandas, seus interesses, seus problemas, para que possamos, em conjunto, desenvolver temas e soluções não apenas de forma conceitual, teórica, mas de forma prática. Isso equivale a perguntar: o que vocês querem aprender?

É claro que um programa de estudos não será estruturado apenas com o que nosso público quer aprender. Muitas vezes entre um tema e outro é preciso fazer uma ligação pedagógica estruturante, e é aqui que o educador intervém, estabelecendo, ou sugerindo, um tema que fará a ponte entre dois temas apresentados por quem vai estudar. Nessa interação entre educador e educandos está a chave do verdadeiro processo educacional, que não mais irá ocorrer de cima para baixo, do educador para os educandos, como algo imposto, mas obedecendo demandas originadas por quem quer aprender e vive o dia a dia da educação tanto na escola, na família e na sociedade.

Esse processo dialógico de interação educador/educandos é um processo libertário das consciências, permitindo a livre expressão, em encontros dinâmicos, muito além de aulas monótonas, absolutistas e que levam muito mais à memorização do que à apreensão.

Um encontro do tipo roda de conversa permeado com trabalho de pesquisa em grupo é muito mais dinâmico, prazeroso e educativo do que um falatório único do educador, como se este fosse aquele que detém o conhecimento, e somente ele, e os outros ali estivessem na sua ignorância somente para aprender. Mas quem disse que os educandos são ignorantes, não têm conhecimentos e também vivências muito ricas?

Quando os educandos participam, interagem, fazem parte do processo como agentes não excluídos, tudo tende a melhorar, a enriquecer, e a educação consegue atingir sua finalidade que é o desenvolvimento integral do ser humano, que terá autonomia, criticidade, ética, solidariedade, responsabilidade e senso moral para fazer as melhores escolhas para si e para os outros.

Essa educação libertária incomoda muitas pessoas, principalmente as que estão no poder, pois ela faz pensar, e quem está no poder não quer que as pessoas saibam pensar com autonomia e senso crítico.

É por esse motivo que temos assistido o desvirtuamento da educação a partir do engessamento pedagógico das escolas, transformadas em meros estabelecimentos de ensino de programas de estudo, os quais não foram debatidos pelos educadores, e nem foram ouvidos os educandos. Nesse sistema, os teoristas e as autoridades elegem o que se acha que deva ser estudado e ensinado, e ponto final, não há espaço para divergência, para questionamento.

Por algum motivo, não sabemos qual, em alguma época foi estabelecido que a escola não tinha que se envolver com o desenvolvimento emocional do educando, o que seria de estrita competência da família, criando uma ruptura perversa que caiu como um raio destruidor em nossa sociedade, causando males sem conta que nos afligem e continuarão a afligir enquanto isso não for revertido.

Por falar na família, o processo educacional deve contemplá-la junto com a escola, e também com a comunidade, mas isso nos leva a pensar em outra questão, a ser abordada num próximo texto.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Somente a educação

Ouvimos de uma autoridade pública a afirmação que somente a política pode melhorar as condições de um país, sendo o único caminho para a estabilidade democrática. Pedimos licença para discordar. A política, entendida pela maioria como ideologia partidária, e não como ciência social, pode ser, e tem sido, instrumento perverso para as liberdades democráticas, defendendo interesses mesquinhos e até mesmo contrários à vida, interesses esses estatutários, elegidos pelo partido político, nem sempre concordantes com a própria democracia. Lembremos que as autoridades públicas são eleitas pelo voto do povo para defender os interesses da maioria, e não para fazer de sua autoridade palanque de favores partidários, o que mais temos visto acontecer historicamente. Isso quando o poder não leva a autoridade pública ao autoritarismo, um grave desvio da democracia tão defendida nos discursos.

Quando uma nação, historicamente, elege a política partidária, a segurança pública, o discurso populista como fatores centrais de suas ações, não pode colher outros frutos que não sejam o despotismo, a injustiça social, a violência, a miséria, o radicalismo nas ideias. É o que temos assistido acontecer no Brasil, quando gerações se sucedem desligadas do que é essencial para qualquer povo: a educação.

Educação que permita o desenvolvimento da autonomia e da ética das crianças e jovens, que promova o pensar e se colocar no lugar do outro, que sensibilize os sentimentos e permita à nova geração ter ideais superiores de vida.

A educação é o caminho para a estabilidade democrática com respeito aos direitos de cidadania. Infelizmente a educação brasileira de há muito tempo perdeu o rumo, sendo transformada em sistema de ensino, perversamente apenas instruindo em conteúdos curriculares previamente programados, deixando de lado o desenvolvimento do senso moral, da empatia, da solidariedade, dos valores humanos.

Esvaziamos a educação, na escola e na família, e agora tentamos resolver um leque de problemas sociais com ações violentas de segurança pública, distribuição de favores às classes desfavorecidas e outras coisas que nada resolvem, pois atingem a periferia desses problemas, não atingem e corrigem as causas. Teimam as autoridades públicas em enxugar gelo, como se isso resolvesse alguma coisa.

De outro lado, vemos uma incômoda inércia por parte dos pedagogos e professores, mas isso tem explicação: é que estão, na maioria, formatados na falsa ideia que existem apenas para ensinar, para dar aula e para fazer discussões acadêmicas intermináveis e sem nenhum resultado positivo para a sociedade.

Eis o resultado de termos elegido a política partidária como roteiro de nossa nação, entranhando a corrupção em todas as instituições, fazendo do jeitinho brasileiro contraponto à honestidade, como se isso fosse normal.

As autoridades públicas, representando seus partidos políticos, na verdade, têm muito medo da educação, pois a educação é libertadora das consciências, então manifestamente trabalham para sucatear as escolas, formatar o pensamento dos professores e desestruturar as família. Quanto aos educadores que levantam sua voz, se o governo for de esquerda, eles são classificados como conservadores; se o governo é de direita, são taxados de comunistas. É mais cômodo fazer essa classificação, assim mantendo a educação como um subproduto, o que facilita a manutenção dos desvios de conduta no serviço público, a mando de interesses particulares e de grupos.

Concluímos que não é a política a salvaguarda da democracia, pois ela depende da formação que estamos providenciando das pessoas que vão, no futuro, assumir a administração pública, e essa formação, que acima de tudo deve ser moral, somente a educação pode propiciar.

terça-feira, 11 de maio de 2021

A educação de quem deve educar

A sala de aula está repleta de olhares sedentos de conhecimento, afinal todos ali estão com um objetivo comum: tornarem-se pedagogos, estarem preparados para trabalhar nas escolas e dar aula a crianças, adolescentes, jovens. A professora explica, sem meias palavras: "Não se iludam! Esse negócio de diálogo com os alunos, construção do aprendizado e outras coisas, é tudo bobagem. Tenho mais de vinte anos de magistério e posso afirmar a vocês que o professor deve entrar em sala e marcar bem a sua autoridade. É ele quem manda e quem ensina. É um erro tirar das salas aquele tablado, porque o professor tem que "ficar por cima". Se vocês, quando começarem a dar aula, não fizerem isso, os alunos tomam conta e fazem de vocês verdadeiros palhaços!".

Quem me narra a cena, com olhar de espanto e indignação, é uma amiga, atualmente fazendo a faculdade de pedagogia. Reflito e argumento: "Discurso e postura mudaram bem pouco nesses trinta e pouco anos que separam minha história de aluno na faculdade, da sua história, hoje, também como aluna numa faculdade".

Diante da realidade que enfrentamos, com a proliferação de faculdades de pedagogia, a maioria particulares, como atestam estatísticas do Ministério da Educação, devemos perguntar: como estamos educando aqueles que devem educar? É questionamento bem mais forte do que se formulássemos a questão desta outra maneira: o que se ensina a quem deve ensinar? Isso porque um pedagogo deveria ser exemplo de educador, fazendo a diferença na escola. E porque professor não é sinônimo de repassador de conteúdos. Infelizmente, não é o que se vê.

Entrincheirados numa cultura acadêmica distanciada da realidade escolar básica, e fazendo de mestrados e doutorados escudo protetor para hipocrisias, diletantismos, favorecimentos e perpetuação no cargo, grande parcela dos professores do ensino superior mantém discurso e postura desantenados, desplugados e dissociados da realidade e das conquistas pedagógicas e psicológicas referentes ao homem.

Minha amiga tem razão em ficar indignada. O conselho dado por sua professora é medieval, demonstrando preconceitos com relação aos alunos e colocando o professor como detentor de um autoritarismo ditatorial e anti-didático - talvez seja melhor dizer antipedagógico.

Quantas vezes, já perdi a conta, professores ficaram olhando para mim sem conseguir definir o que é educação? E a definição de pedagogia? E por que estão em sala de aula? A maioria é pedagogo, está fazendo ou já fez pós-graduação. E não conhecem muitos pensadores e educadores. Nunca leram sobre eles ou algo que escreveram. Às vezes desconhecem o mínimo sobre didática. Será que podemos chamá-los de pedagogos?

Desde a década de sessenta do século vinte perdemos o rumo da educação em nosso país. Lá se vão mais de sessenta anos de formação deficiente do professor, desqualificação da escola e substituição do educar pelo ensinar. E os resultados aí estão, sem necessidade de comentários.

Enquanto ficarmos assistindo, ano após ano, pedagogos de papel, exibindo um certificado da faculdade, adentrarem ao sistema de ensino com visão e valores deturpados, o que podemos esperar como consequência?

Precisamos romper com a clássica sala de aula e o professor ensinando, mas como fazer isso se não estamos educando corretamente quem deve educar?

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A escola é uma família que reúne pessoas

Aos meus olhos, ensino escolar que não abranja todo o Espírito, como exige a educação do homem, e que não seja construído sobre a totalidade viva das relações familiares conduz apenas a um método artificial de encolhimento de nossa espécie.”

Pestalozzi

O educador suíço Pestalozzi escreveu essas palavras em 1799, após o sucesso de seu empreendimento pedagógico no Orfanato de Stans, quando recolheu e educou mais de 40 crianças vítimas da guerra napoleônica, muitas delas órfãs, outras de pais muito pobres, todas perambulando pelas ruas como mendigas à procura do que comer. Ele era o primeiro a levantar e o último a se recolher para dormir, e as tratava como um verdadeiro pai. Essa filosofia Pestalozzi levou depois, em 1804, para o Instituto de Iverdon, escola por ele criada e que recebeu enormes elogios, sendo considerada à sua época como um modelo que devia ser seguido por todas as escolas.

Diz o mestre que o ensino dado na escola precisa abranger todo o espírito, ou seja, precisa levar em conta o ser integral com todas as suas potencialidades, habilidades e competências. Deve ter igualmente por base a riqueza das relações familiares. Se isso não for feito teremos um encolhimento, um empobrecimento cultural, da humanidade.

Basta um olhar para o que hoje temos em nossa sociedade para verificar o acerto de Pestalozzi nessa sua afirmação. As escolas trabalham um ensino compartimentado, engessado, distante da realidade da vida, e que não leva em conta o ritmo de aprendizado de cada criança, nem suas experiências vivenciais. Não há termos de comparação da escola com a família: há um abismo entre elas.

Informa ainda nosso educador da humanidade:

Eu despertava os sentimentos das virtudes antes que se fizessem discursos sobre elas, pois considerava prejudicial tratar com as crianças de alguma coisa enquanto não soubessem do que falavam.”

Hoje temos uma educação baseada no ensinar muitas e variadas coisas: Matemática, Língua Portuguesa, Física, Química, Biologia, História, Geografia, Inglês, Informática, Robótica, Balé, Natação, Esportes e outras coisas, entretanto vemos alunos, crianças e jovens, atarantados, atrapalhados, perdidos, cismarentos e descartando sumariamente boa parte do que lhes é ensinado, pois não sabem para que servem. São conhecimentos utilizados apenas para fazer as provas e tirar as notas necessárias que lhes darão passaporte para o ano letivo seguinte, ou para o próximo segmento de ensino.

Quanto ao desenvolvimento das virtudes, do senso moral, da ética, da empatia … a maioria das escolas não trabalha, nem mesmo como o famoso tema transversal, de que tanto se falou e agora caiu no ostracismo de mais uma quimera pedagógica, ou, talvez melhor dizendo, um pesadelo pseudo pedagógico, mais uma das invenções dos técnicos em educação tendo ideias mirabolantes em seus gabinetes de trabalho, sem nunca terem colocado os pés no chão da escola, na prática diária com crianças e adolescentes.

A escola somente existe porque nela temos pessoas dotadas de sentimento e inteligência, cada uma em seu grau particular de desenvolvimento, com suas habilidades, com seus conhecimentos, com suas dificuldades e também com seu potencial humano. Quando a escola vai reconhecer essa verdade?

Que adianta querer ensinar se o aluno não é levado em conta? Se ensinamos sem dizer para que serve o que se ensina? Se menosprezamos a educação em virtudes, a educação que deve permitir o desabrochar da pessoa de bem, que saiba se colocar no lugar do outro?

As novas gerações precisam ser tocadas, sensibilizadas no âmago de suas almas. Esse trabalho educacional deve ser prioridade, pois é o único que previne as desigualdades sociais, as injustiças e a violência.

Pestalozzi já sabia disso no final do século 18, e mostrou, na primeira metade do século 19, que é perfeitamente possível, sem nenhum mistério, fazer a escola trabalhar, junto com a família, pela formação do ser integral, ético, solidário e utilizando a inteligência para o bem comum.

Como é bom reler a Carta de Stans, que na época ele dirigiu a um amigo particular, mas que bem poderia ter escrito para todos os pedagogos e professores.

Vídeo - O Jovem e a Dinâmica Educacional

O vídeo sobre educação espírita O Jovem e a Dinâmica Educacional aborda a importância da participação do jovem no processo ensino-aprendizag...