Quando falamos em guerra, normalmente entendemos movimentos militares, bélicos, com muita destruição, mortes, lutas sangrentas; mas existe uma outra guerra, silenciosa, que acontece diariamente tanto no seio da família quanto da sociedade, e que não utiliza armamentos sofisticados, nem provoca destruição material, mas causa danos e sofrimentos muitas vezes inenarráveis. Vamos destacar essa guerra quando ela acontece na família, pois compreendê-la é fundamental para aplicar o remédio que pode evitá-la. Vamos nos socorrer de um exemplo para facilitar a compreensão do tema, e o leitor logo entenderá a que guerra estamos nos referindo.
Imaginemos uma reunião familiar em torno de um aniversariante, onde a alegria deveria a todos contagiar, num ambiente de fraternidade, de reencontros entre parentes que, por diversas circunstâncias, nem sempre podem estar próximos, sendo portanto a festa excelente oportunidade de rever os familiares. Reparemos que pouco a pouco, grupos de conversação são formados, o que é natural, pois trata-se do funcionamento da lei de afinidade, de simpatia. É então que as maledicências correm soltas, e que determinadas pessoas evitam outras, por serem antipáticas entre si, apesar de pertencerem à mesma família. E como afirma o ditado popular que quem conta um conto sempre aumenta um ponto na história, gradativamente inveja, ciúme, prepotência, arrogância, vaidade, e mesmo raiva e ódio, vão contaminando os relacionamentos, chegando-se muitas vezes a aborrecimentos e trocas de palavras ferinas, anunciando uma possível tragédia. Essa é a guerra silenciosa que contamina o relacionamento familiar e, por extensão, a sociedade.
Quantos crimes já ocorreram por causa das ervas daninhas do ciúme e da inveja? Quantas tragédias já aconteceram por efeito da raiva e do ódio? Quantas inimizades são alimentadas por motivo da maledicência? Palavras e pensamentos que desejam o mal ao outro representam dardos repletos de energia venenosa, com poder suficiente de destroçar a união familiar, infelicitando a quem fala e pensa, assim como a quem agasalha em si essas palavras e pensamentos. E não escapa a isso quem vive de intermediário, como aquela cena muito conhecida, quando um familiar chega a nós para dizer o que fulano ou fulana anda dizendo por aí de nós mesmos. Todos somos responsáveis: o emissor, o intermediário e o receptor.
Como realizar o bom combate para evitar essa guerra e, se ela já estiver acontecendo, conseguir estabelecer a paz nos relacionamentos? Esse bom combate tem início conosco mesmo, no trabalho incessante de educar os próprios sentimentos, permitindo que as virtudes da humildade, bondade, fraternidade e solidariedade substituam gradativamente os vícios morais acima descritos. É também fundamental exercer a compreensão, a tolerância e o perdão, sabendo se colocar no lugar do outro, e fazendo a ele somente o que desejamos o que ele nos faça, como ensinou Jesus.
A paz na família, assim como a paz no mundo, depende da nossa paz. O invejoso e ciumento é uma alma adoentada, em desequilíbrio, merecedora de compaixão, piedade e de nossas orações a seu favor, a seu benefício, para que possa ter forças em superar esses vícios destruidores. É também, esse trabalho, uma guerra silenciosa íntima, pois trata-se de realizar o autoconhecimento acompanhado da autoeducação, o que demanda muitos esforços, com quedas ao longo do caminho, até a superação completa de si mesmo através da moralização e espiritualização.
Como ensinam os Espíritos Superiores na codificação espírita, a raiz de todos esses vícios que desonram a humanidade, está no egoísmo, e este anda de mãos dadas com o orgulho. São as duas grandes chagas morais do ser humano, cujos efeitos estão estampados nas inimizades, nas discussões, nas brigas, nos ciúmes, nas invejas, nos rancores e nos ódios que avassalam muitas famílias.
São o egoísmo e o orgulho que nos levam a tecer julgamentos sobre os outros, com críticas mordazes, ferinas, destruidoras, e que fazem com que não aceitemos nenhuma crítica a nós mesmos, quando deveríamos ter a humildade de saber escutar aqueles que apontam nossos defeitos, tirando disso o proveito de nos aperfeiçoarmos.
Estamos reencarnados no mesmo núcleo familiar não para alimentarmos discórdias que trazemos das existências passadas, onde também estivemos juntos, nem para criarmos novas dissensões, mas para colocar em prática o “amai-vos uns aos outros”, num esforço perseverante de nos entendermos como irmãos, pois somos todos filhos de Deus caminhando para a perfeição, e, querendo ou não aceitar, isso pouco importa, somente fazemos a contento essa caminhada se nos dermos as mãos, pois é no convívio social, iniciando pela família, que podemos aprender a estabelecer o amor como roteiro da paz em nossa vida e na vida dos nossos semelhantes.
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