Está fazendo sucesso a minissérie Adolescência, e, de fato, merecesse esse sucesso. Em quatro episódios intensos, com ótima atuação de atores e atrizes, temos farto material para pensar e refletir com profundidade sobre quem somos, o que estamos fazendo aqui e o que queremos ser na vida, com oportunos questionamentos sobre a família, o relacionamento social, o papel da escola, entre outros temas igualmente de relevância. No modo materialista de encarar a vida, os personagens se perdem numa rede psicológica que não entendem. Quem mar os seus entes queridos, mas não sabem como fazer isso e, diante de um crime inesperado, totalmente fora do previsto, ficam perplexos, paralisados, atônitos. Como faz falta uma visão espiritualista da vida, como faz falta o sentido de humanização, como faz falta a religiosidade, é o que podemos constatar. Mas não estamos aqui para descrever o roteiro da minissérie, e sim para focar nossa análise na escola que aparece no segundo episódio, e que no dizer dos personagens policiais, mais parece uma prisão, uma penitenciária.
É o retrato da escola que não deveria existir: repressora, arcaica, desvinculada da educação, despreocupada com os seres humanos que a fazem, sejam seus professores, seus alunos, os pais e demais funcionários. Tenta resolver os problemas com ordens, castigos, isolamentos e indiferença às questões emocionais e psicológicas. A cena do refeitório, em que o aluno negro sofre bullying, e o professor pede para que o aluno racista apenas pare com aquilo, seguindo em frente no que ia fazer, ou seja, sem parar para fazer a mediação do conflito, é bem o retrato de uma escola que há muito tempo se perdeu da educação e do seu papel de formação das novas gerações. Ainda mais emblemática é a cena em que os dois policiais, mal tendo entrado na escola, acompanhados pela diretora, passam por um professor emparedando dois alunos, fazendo um clássico sermão acompanhado de ameaças: chamar os pais, levar para a diretoria, aplicar uma suspensão, ou até mesmo sugerir a expulsão dos mesmos, assim livrando-se do “problema”.
Durante uma hora assistimos estarrecidos o retrato de uma escola falida, perdida em si mesma, desligada da realidade familiar e social dos alunos, com professores indiferentes e outros que sabem apenas gritar e ameaçar, caso da própria diretora. Agravando a situação, percebemos que os pais da história, ou seja, o policial e os do adolescente que está preso, nada sabem da escola em que seus filhos estudam, sendo completamente alheios ao ambiente frio, repressor e desumano em que os filhos vivem, isso agravado ainda mais com o não acompanhamento do que os adolescentes fazem através da internet e suas redes sociais, situação também pertencente aos professores, que vivem uma realidade paralela, desfocada da realidade dos alunos.
Como adeptos da doutrina espírita, compreendendo a criança como um espírito reencarnado, tendo por base do processo educacional o amor e a fraternidade, nossa visão sobre a escola é bem outra, a partir de uma visão bastante diferenciada do que seja a educação. É o Espiritismo que nos dá a esperança de construir uma escola diferente e que faça a diferença, uma escola humanizada e espiritualizada, participativa e criativa, mesmo que não siga os princípios do Espiritismo, mesmo que não seja vinculada a nenhuma religião. E, felizmente, essa escola existe e está espalhada pelo mundo, com exemplos dignos de serem seguidos, onde crianças e adolescentes participam ativamente do processo de seu desenvolvimento intelectual e emocional, tendo na escola uma extensão da família, ou a considerando uma grande família que lhes dá suporte para serem bons cidadãos.
No movimento espírita temos igualmente esses exemplos, e temos tido oportunidade de, bimestralmente, nas edições da Revista Educação Espírita, trazer esses bons exemplos escolares: Escola Espírita Joanna de Ângelis (Japeri/RJ); Mansão do Caminho (Salvador/BA); Obra Social Célio Lemos (São José dos Campos/SP); Remanso Fraterno (Niterói/RJ); Lar Anália Franco (Jundiaí/SP); Educandário Espírita Eurípedes Barsanulfo (Goiânia/GO); Escola Espírita Prof. Ney Lobo (Manaus/AM); Escola Espírita Chico Xavier (Palmas/TO); entre outras instituições espíritas voltadas para a educação, com escolas humanizadas e que baseiam seu trabalho no desenvolvimento dos valores humanos, na vivência da ética, e no desenvolvimento da espiritualidade.
Sobre essa escola recomendamos a leitura de um livro não espírita, mas muito importante, escrito pelo educador brasileiro Rubem Alves: Escola Com Que Sempre Sonhei Sem Imaginar Que Existia. Nessa obra ele fala da visita feita à Escola da Ponte, na cidade do Porto, em Portugal, uma escola inovadora que durante muito tempo teve à frente o educador José Pacheco, de quem também recomendamos a leitura de seus livros. Embora esses dois educadores não tenham contato com a doutrina espírita, seus pensamento e suas ações têm um casamento muito bom com o que a filosofia espírita da educação promove, assim como as escolas espíritas terão um bom modelo na Ponte, que ao longo do tempo tem sido objeto de estudo e aplicação na renovação escolar e educacional.
Não podemos esquecer que o centro espírita é uma escola de almas, ou seja, dos espíritos reencarnados, e que, nas devidas proporções e sem perder as diretrizes doutrinárias que devem lhe sustentar, deve proporcionar o estudo e a vivência do Espiritismo, nas legítimas bases dos ensinos morais do Evangelho, sendo, portanto, uma escola dinâmica, trabalhando da criança ao adulto, de forma integral, no desenvolvimento do potencial divino de cada um.
Voltando para a escola apresentada na minissérie Adolescência, temos que exclamar que ela é a escola que não deveria existir, assim como o centro espírita parado no tempo, alheio às exigências dos novos tempos sociais, também não deveria existir. E pais alienados, que não acompanham o desenvolvimento dos filhos, que não demonstram afeto, também não deveriam existir. Mas tudo isso existe, e compete a nós, que abraçamos a realidade espiritual da vida, trabalhar incessantemente para a transformação das escolas, dos centros espíritas e da família, legitimando o amor, a fraternidade, a solidariedade e a espiritualidade nas instituições humanas, a partir da transformação moral de nós mesmos.