segunda-feira, 26 de abril de 2021

Educação, política e lucro

Temos dois caminhos bem nítidos na educação brasileira: de um lado o sistema escolar público, à mercê da política partidária e dos mandos e desmandos do chefe de governo, seja ele municipal, estadual ou federal; de outro lado o sistema escolar particular, sendo rifado por empresas ditas educacionais, que visam apenas muito lucro com um ensino elitista e formatado. Pobre educação brasileira. São poucas as escolas resistentes e que conseguem fugir a um sistema degradado, que trocou o educar pelo ensinar, a aprendizagem pela memorização.

Do lado público, temos o histórico sucateamento das escolas, a politização da direção escolar, a falta de plano de carreira do magistério, os salários baixos e uma burocratização que sufoca a pedagogia.

Do lado particular, temos uma corrida desenfreada de empresas lutando entre si para ver quem tem o maior sistema escolar, e quem fatura mais, e lucra mais. Agora temos, inclusive, escolas separadas por nível de excelência. Se os pais tiverem dinheiro, seus filhos poderão estudar nas melhores escolas do sistema de ensino, do contrário, vão para as outras.

É bem provável que Anísio Teixeira, Paulo Freire, Anália Franco, Lauro de Oliveira Lima, Rubem Alves, Helena Antipoff, entre outros, estejam vertendo lágrimas diante dessa perdição educacional brasileira, que vem sendo construída já há algumas décadas. A bem da verdade, não temos mais educação em nosso país. Temos vários métodos de ensino em escolas que não trabalham a aprendizagem, não respeitam o ritmo de cada aluno, não se interessam por desenvolver a ética e a liberdade.

Os poderosos, sejam públicos ou particulares, têm medo, muito medo, da educação. Professores, livros e canetas dão arrepios a essas pessoas, pois significam promover o pensar, a criticidade, a autonomia, a criatividade. Isso pode tirá-las do poder. Não nos iludamos com os empresários da educação. Eles estão no ramo apenas para obter muito lucro. Criam empresas e sistemas de ensino parta fidelizar a clientela, malversando a educação, em escolas com aparência de excelência em qualidade, mas com projetos pedagógicos pobres, engessados, apostilados, onde tecnologia da informação é confundida com qualidade em educação.

Quanto ao sistema público de ensino, falar de escolas sucateadas, sem banheiro e água potável, é chover no molhado, pois fala-se disso há muito tempo. Assistimos governos se sucederem e a educação nunca ser prioridade, a não ser de fachada, no discurso, nunca na prática.

Hoje temos gerações mescladas em nossa sociedade, dos mais jovens aos mais adultos, que não sabem exercer sua liberdade com respeito à liberdade dos outros. Vemos pais perdidos diante dos filhos: simplesmente não sabem educá-los. E a corrupção, a desonestidade, a violência, a falta de ética, o individualismo egoísta, dominam em todos os níveis e setores da população brasileira. Não é à toa que assistimos embates políticos, religiosos, ideológicos radicalizando discursos e atitudes em nossa sociedade, gerando e cultivando mais males.

Toda nação que não dá importância à educação, é nação fadada ao derretimento moral de seus indivíduos e de sua coletividade. E quando a educação é sistematicamente confundida com a instrução, o ensino, temos aberta a porta para o precipício que faz com que essa nação se degrade, se desgaste e caminhe para uma crise de difícil e demorada solução.

Movimentos como o das escolas inovadoras, têm procurado tirar o Brasil desse precipício, mas é preciso bem mais do que isso para uma decidida transformação, para termos um novo rumo em nossa educação.

No atual momento, não enxergamos nas autoridades governamentais e nos empresários, ou seja, no sistema público e no sistema particular de ensino (educação!!!), visão e interesse em mudar as coisas, mas temos a esperança que isso aconteça mais cedo ou mais tarde, pois muitas vozes têm se levantado, e essas vozes haverão, com o tempo, de tornar fortes o suficiente esse grito pela educação, por uma nova nação brasileira, que não mais se curve aos déspotas, sejam estes agentes públicos ou empreendedores empresariais.

Somente a educação, bem compreendida e vivenciada, poderá transformar as pessoas, que por sua vez transformarão a sociedade em que vivem.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Currículo e vida

É possível conciliar o currículo escolar com os fatos da vida cotidiana?

Essa foi a pergunta a mim dirigida por um professor da educação básica, para a qual respondi com outra pergunta:

E porque não seria possível?

O esperançoso e poético educador Rubem Alves contava a rica e estimuladora “aula” a partir de um copo descartável, tão comum no nosso cotidiano. Para que serve? Do que é feito? De onde vem sua matéria-prima? Qual é a indústria que o processa e como? Como deve ser descartado? Qual é a sua influência no sistema ecológico planetário? Ele deve ser substituído por copos feitos de materiais mais ecológicos? E assim a aula tratou de história, química, ecologia, responsabilidade social, processos industriais.

Lembro de um professor de literatura que levou música para a turma de jovens estudantes do ensino médio, deleitando-se em ouvi-las. O que a música tem a ver com a literatura e a língua portuguesa? Tudo! As músicas são compostas de melodia e letra. Já paramos para analisar as letras das músicas e verificar que são poemas musicados? Qual o significado do que estamos cantarolando? Qual é a estrutura de construção das frases?

Outro professor colocou os alunos em círculo e estampou uma página de jornal com reportagem sobre meninos e meninas envolvidos com o tráfico de drogas, convidando-os a mergulhar no conteúdo e trazer os variados aspectos sociológicos e antropológicos daquela realidade. A vida enriquecendo a sala de aula e trazendo diversos conteúdos curriculares para discussão.

O revolucionário educador José Pacheco, famoso pela escola portuguesa da Ponte, costuma olhar para seus alunos e perguntar: O que vocês querem aprender? A partir dos interesses individuais uma gama variada de aprendizados é realizada, trazendo para a conversação diversos conteúdos que estão no programa curricular.

E o escritor, professor e dramaturgo Ariano Suassuna com suas aulas diferentes, apelando para a construção de imagens, para a criatividade, fazendo pensar e tornando os conteúdos curriculares agradáveis e plenamente afinados com a vida? E a vida descortinando os conteúdos curriculares?

Por fim, minha lembrança vai até a professora Lucy, que no ensino fundamental viu que seus alunos adorava múcica e fazer das carteiras verdadeiros instrumentos musicais. Ela lecionava língua portuguesa, e resolveu fazer do universo musical o motivo de suas aulas, sempre de acordo com as experiências musicais de seus alunos, até conseguir introduzir o que eles não conheciam desse universo tão rico que é a música. Todos aprenderam muito bem a língua portuguesa.

Bons exemplos não faltam. Não precisamos abandonar o currículo, pois ele é um norteador do trabalho, mas devemos tirar o gesso que o deixa frio e distante da vida. Basta colocar criatividade e dinâmica, permitindo que os alunos participem ativamente do processo de aprendizagem.

Levar as questões da vida para a escola, deixando-as adentrar à sala de aula, é enriquecer o currículo e aproximá-lo da realidade dos alunos. Além disso, é fazer com que a aprendizagem tenha significado e não precise, portanto, ser memorizada, o que se perderá com o tempo, pois conhecimento que não se pratica é conhecimento inútil, logo descartado por outro.

Currículo e vida devem se dar as mãos. O professor deve para de querer dar aula, de querer ensinar, para deixar a aprendizagem participativa fluir e renovar a escola e a educação.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Do sono para a atividade

Nós temos que recriar, constantemente, nossa práxis como educadores, desafiando os estudantes a estarem alerta e não adormecidos, ou seja, a ter voz e não apenas ouvir a voz dos professores. A desenvolverem sua autonomia, a serem eles mesmos e não o reflexo de seus professores ou de suas professoras.

Paulo Freire

Por que eu tenho que estudar isso?

A pergunta do Paulinho deixou a professora embaraçada, que sacou logo a resposta padrão:

Por que está no currículo e um dia você vai precisar saber isso.

Todos os que já passamos pela escola sabemos que esse dia quase nunca chega, pelo menos não de forma consciente, pensada. Os muitos conteúdos que estudamos, memorizamos e comprovamos em provas, se foram, esvaíram-se de nossa mente e se perderam diante das necessidades existenciais, o que revela que na escola precisamos mudar o que fazemos, preparando os alunos para a vida, e não para receber conteúdos formatados e programados à revelia da realidade da vida.

Os professores precisam criar, na prática, um novo paradigma: deixar os alunos desenvolverem sua autonomia e serem os responsáveis pelos aprendizados. Isso não significa que o professor não terá o que fazer, pelo contrário, pois terá de acompanhar cada aluno no seu desenvolvimento, na sua aquisição de saber. Terá que trabalhar os conteúdos aplainando o caminho dos alunos, orientando-os constantemente. O que realmente muda em sua postura é que deixará de dar aula, deixará de se desgastar preparando tudo o que é necessário para desenvolver uma aula, pois estará na posição de orientador, facilitador do processo de aprendizagem realizado com autonomia, mas não sem direção, pelo aluno.

Os professores devem se permitir trabalhar dispondo os alunos em grupos de estudo e pesquisa, realizando rodas de conversa, debates e concluindo projetos de estudo, com ampla participação dos alunos, o que já foi provado ser muito mais eficiente do que dar aula, do que seguir rigidamente, dia após dia, conteúdos pré programados.

Para que tenhamos essa transformação da escola, do ensino, adentrando à verdadeira educação, temos que repensar a formação dos professores.

Sem investir na formação, e não meramente no treinamento dos educadores, é muito difícil concretizar uma educação que promova o pensamento crítico, que prepare estudantes e educadores para responder aos desafios impostos pelas mudanças nos estilos de vida.

Tem razão Paulo Freire, pois hoje os cursos técnicos e as faculdades de pedagogia preparam os futuros professores apenas para dar aula, e como esse sistema há muito tempo nos entrega péssimos resultados, as novas gerações querem distância do magistério. O professorado está envelhecendo e os responsáveis, sejam os pedagogos ou as autoridades, teimam em não querer aceitar a necessidade da transformação.

Estamos em sono profundo, letárgicos, deixando a educação ser confundida com a escolaridade diplomada, certificada, não se sabe para quê. Despejamos anualmente na sociedade milhões de seres humanos despreparados diante das realidades da vida, ostentando uma certificação profissional que nada diz deles mesmos, mais perdidos que cegos em meio a um tiroteio.

Contudo, não perdemos a esperança na transformação. Somos seres criativos, sonhadores, de atividade. A acomodação pode retardar a marcha do progresso, mas é inevitável progredir, tanto pela força das coisas, dos acontecimentos, como pela nossa força de vontade em querer fazer diferente para colher novos resultados. É assim que estamos trabalhando para sair do “sempre foi assim” para o novo, pois nossa esperança é que a educação transforme o homem e a humanidade para termos ética e solidariedade na vida.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Conversando sobre educação

Em conversa online com professores mais uma vez constato o quanto ignoramos o que seja verdadeiramente a educação.

A professora Vanessa argumentou:

Educar é transmitir conhecimentos, esse é o papel da escola, é o que tenho que fazer em sala de aula, trabalhando os conteúdos da minha disciplina.

A aquisição de conhecimentos, e que sejam úteis para o viver, faz parte do processo educacional, mas será que a educação se limita a isso? E o desenvolvimento socioafetivo da criança, onde fica? Quem faz? E permito-me mais uma pergunta: A escola limita-se à sala de aula, e nela o professor é apenas informante de conteúdos programados? Nesse caso temos que a escola está divorciada da vida, e o professor isolado da criatividade.

Já o professor Rodrigo, com bom tempo de cátedra, sentenciou:

Não me parece que seja nossa competência discutir a educação, não somos pagos nem contratados para isso, mas apenas para dar aula.

Aqui percebemos nitidamente que o professor não se considera um educador, mas apenas um auleiro, alguém que se preparou para dominar, ou decorar, o conteúdo de sua disciplina curricular, entrar na escola, dirigir-se à sala de aula e transmitir, às vezes sem os devidos cuidados metodológicos e didáticos, esse conteúdo, não levando em consideração o processo de aprendizagem de cada aluno, pois que cada um tem seu ritmo. Bem, como lembrou o professor Rodrigo, pensar sobre isso não é de sua competência. Ou será?

Na sequência da conversa, sentenciou a professora Magda:

Agora querem que nós professores também trabalhemos o emocional dos alunos. Ora, e temos tempo para isso? E com alunos que não querem saber de nada?

A fala da nossa querida professora nos levou a duas considerações específicas. Primeiro, que, de fato, o professor vive atolado numa burocracia infernal. Deve cumprir um currículo em tempo determinado, deve aplicar as provas de avaliação r corrigi-las, deve preencher os formulários, impressos e/ou digitais, lançar as notas e outras coisas mais que, de fato, lhe tiram um tempo precioso. É uma queixa válida, mas que não justifica o desprezo pelo desenvolvimento emocional dos alunos. Segundo, será que as crianças e jovens realmente não querem saber de nada? Ou será que se sentem entediados numa escola que não lhes dá liberdade, que se isola da realidade existencial, que prioriza o fazer sempre como foi feito e ponto final?

Desde a década de 1980 participo de encontros, rodas de conversas, seminários sobre educação, e o que venho constatando é a falta de visão e entendimento por parte dos professores sobre educação.

Numa palestra que fiz para alunos de uma faculdade de pedagogia, todos no quarto período do curso, depois de vinte minutos em tentativas frustradas, não consegui que eles dessem uma definição satisfatória sobre educação e pedagogia. Simplesmente não sabiam, pois ali estavam com o objetivo de serem professores, auleiros, passadores de conteúdos, repetidores do processo de ensinagem, como papagaios que sabem imitar a voz humana, mas não sabem pensar e fazer diferente.

Triste realidade da educação brasileira, que desde um bom tempo é chamada de ensino brasileiro, ou seja, até na terminologia oficial não se fala mais em educação: as escolas formam redes de ensino, quando deveriam ser de educação.

E assim vamos. Escolas isoladas da comunidade, afastadas da família, com professores que só sabem ensinar acompanhando livros didáticos e apostilas, e estudantes de pedagogia que sequer sabem o que essa palavra significa.

As conversas sobre educação são muito ricas, nos levam a uma explosão de reflexões, não para destruir, mas para construir o novo, de que tanto necessitamos para vislumbrar um amanhã melhor na sociedade humana.

Vídeo - O Jovem e a Dinâmica Educacional

O vídeo sobre educação espírita O Jovem e a Dinâmica Educacional aborda a importância da participação do jovem no processo ensino-aprendizag...