segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Educação e espiritualidade: outras considerações

Trago para reflexão texto do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, conhecido mundialmente por ser ativista da paz e dos direitos humanos, e mestre da atenção plena, para continuar a abordagem sobre educação e espiritualidade:

"A espiritualidade não é uma religião. É um caminho para gerarmos felicidade, entendimento e amor, para que possamos viver profundamente cada momento de nossa vida. Manter uma dimensão espiritual não significa escapar da vida ou passar um tempo em um local de felicidade, fora do mundo, mas descobrir maneiras de enfrentar as dificuldades da vida e gerar paz, alegria e felicidade bem aqui onde estamos, neste lindo planeta."

Esse pensamento está em perfeito acordo com meu texto primeiro, publicado aqui no Blog Análise & Crítica, quando deixei claro que espiritualidade não se confunde com religião, com determinada doutrina religiosa.

Analisemos agora as palavras do monge budista.

Ele diz que a espiritualidade é um caminho para gerar felicidade, entendimento e amor, um caminho para vivermos com profundidade cada momento da vida. Diante de tanta correria, tanta energia gasta com sensações, tanta informação que entulha nossa mente de coisas nem sempre necessárias, parece uma utopia, algo não possível de realização nos tempos atuais, viver com profundidade, pois isso requer introspecção, silêncio, relaxamento, meditação, o que leva muitas pessoas a imaginar que precisam se retirar da sociedade para ter um encontro consigo mesmas e com a felicidade.

Mas esse pensamento está em desacordo com a fala de Thich Nhat Hahn. Pelo contrário, ele diz que não devemos viver fora do mundo, num oásis qualquer de paz, em retiro beatífico, e sim devemos viver no mundo tal qual ele é e onde estamos, pois devemos saber enfrentar as dificuldades gerando paz, alegria e felicidade para nós e para os outros.

Nesse entendimento, vemos que é possível trabalhar a espiritualidade, a paz e a felicidade tanto no ambiente da família quanto no ambiente da escola, propiciando às crianças e jovens que façam um encontro consigo mesmos. Isso é possível com a realização de rodas de conversa sobre temas do cotidiano da vida, aproveitando para reservar um tempo para relaxamento e meditação.

Família e escola não precisam se tornar qual um templo budista, não é essa nossa proposta. Propomos que reservem espaço de tempo para o autoconhecimento, para o sentir a vida mais plenamente, pois, como disse Antoine de Saint-Exupery, o essencial é invisível aos olhos.

A invisibilidade do essencial está na alma, está nos sentimentos, está na formação moral levando a pessoa à ética, ao bem e à solidariedade.

Se as ciências exatas e as ciências sociais nos levassem à plenitude do ser, já estaríamos vivendo em paz há muito tempo, mas não é isso o que acontece.

Conhecimento sem espiritualidade e inteligência sem sentimento geram injustiça, violência, corrupção, egoísmo, guerra, discriminação, fanatismo e tantos outros males que conhecemos muito bem.

Não está na hora de, através da educação espiritualizada, humanizada, mudarmos esse quadro na sociedade humana?

Pensemos… e façamos!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Educação e espiritualidade

Antes de alinhavar minhas palavras a respeito do tema que dá título a este texto, esclareço que não vou falar de religião, e nem considero que abordar a espiritualidade do ser humano tenha necessariamente que passar pela visão de alguma doutrina religiosa, seja ela qual for, embora o tema adentre por questões que, para muitos, são de exclusividade da religião, como por exemplo, a alma. Na verdade tudo faz parte da cultura humana, dos conhecimentos humanos que precisamos estudar através das ciências, e o tema espiritualidade não pode fugir a esse entendimento e, portanto, não pode ficar fora das cogitações educacionais, lembrando que a educação também faz parte do conhecimento científico sobre o desenvolvimento dos seres humanos.

Então, correndo risco de desagradar aos que são muito religiosos e ardorosos defensores de sua crença, inicio afirmando que o tema espiritualidade na educação, portanto também na escola, não pode ser debatido pelo viés do ensino religioso, e sim pelo viés da religiosidade, que é algo bem diferente.

Para colocar os pingos nos “is”, quando falamos de religião já existe um entendimento subjacente que estamos falando de uma doutrina religiosa específica, ou seja, estamos nos referindo ao catolicismo, ou ao protestantismo, ou ao islamismo, ou ao budismo, ou ao judaísmo e assim por diante. É por esse motivo que a adoção do ensino religioso nas escolas brasileiras não deu certo, pois o entendimento foi o de ensinar esta ou aquela religião, de modo facultativo, e o ensino religioso na escola laica não “pegou”, não foi à frente.

Outro é o entendimento quando falamos de religiosidade, ou seja, a crença, a fé, em algo superior a nós, e não importa o nome de damos a isso; religiosidade pode ser demonstrada por qualquer pessoa, seja ou não adepto de uma religião formal. Movida pela fé, pela crença, ela tudo suporta e persevera em seus ideais superiores, em seus sentimentos de bom caráter. Como se diz popularmente: é, muitas vezes, o ateu mais religioso que se conhec. E só para continuar a colocar os pingos nos “is”, o ateu é a pessoa que não acredita na existência de Deus ou de seres superiores, os chamados deuses.

Pois bem, dito tudo isso, e cremos que fosse necessário tê-lo dito para bom esclarecimento dos que assistem minhas palavras, podemos agora falar da espiritualidade na educação.

Sabemos que nós, seres humanos. Somos seres integrais, pois somos dotados de inteligência e sentimento. Os graus de desenvolvimento dessas duas potências podem ser os mais variados, mas é inegável que as possuímos. E que pensamos, raciocinamos, temos consciência e fazemos escolhas. E que nos emocionamos, choramos, rimos e determinamos nossa razão de ser no mundo.

Da criança ao jovem, do adulto ao idoso, nunca perdemos a inteligência e o sentimento, embora às vezes cerceados ou limitados por diversas circunstâncias, e precisamos responder a quatro perguntas essenciais para melhor viver: Quem somos? De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? Para onde vamos? E nos deparamos com o dilema vida e morte, corpo e alma.

Onde encontramos na educação o pensar e trabalhar esses temas essenciais? Em qual escola de ensino básico encontramos professores e alunos debatendo a religiosidade, a espiritualidade e o humanismo do próprio ser humano?

Se temas essenciais que direcionam o viver no mundo não são estudados, não temos que nos espantar pelos flagelos sociais impostos pelo egoísmo e pelo orgulho, pela insensibilidade e indiferença, que caracterizam as últimas gerações.

Na educação temos que aprender a fazer aos outros somente o que gostaríamos o que os outros nos fizessem. Essa é a regra de ouro. Mas como ter esse aprendizado numa escola em que prevalece o materialismo e o egoísmo?

Precisamos ter na educação e na escola uma filosofia espiritualista do ser humano integral, único caminho para revertermos o quadro atual de nossa sociedade. Afinal, somos uma alma ou simplesmente um corpo? Por que estamos nesta casa planetária e qual deve ser nosso papel na mesma?

Pensemos...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

É preciso transformar

Ao olharmos para as instituições humanas, e mais especialmente para as instituições diretamente ligadas à educação – as famílias, as escolas e as igrejas –, constatamos que essas instituições, ao lado de muitos conteúdos ligados às mais diversas áreas do conhecimento, não trabalham o que é mais importante e essencial para o ser humano: o autoconhecimento, a autoeducação, a preparação para a vida, o pensar no bem coletivo e ter olhar voltado para o futuro da humanidade.

Há muito tempo temos assistido gerações inteiras lançadas na sociedade que, se de um lado possuem vários conhecimentos, de outro lado quase nada possuem de desenvolvimento moral. E como nos queixarmos da violência, da corrupção, da injustiça e de tantos outros males sociais, se os indivíduos que compõem a sociedade são egoístas, orgulhosos, vaidosos, materialistas e impulsionados pela sede do poder, pelas paixões, deixando-se arrastar por vício de caráter de toda espécie?

As famílias estão normalmente preocupadas em cuidar dos filhos dando-lhes alimentos, roupas, remédios e outras coisas relacionadas ao corpo, mas deixam em segundo plano os cuidados com a alma, com o bom desenvolvimento emocional das crianças, em serem éticas e solidárias, humanizadas e afetivas.

As escolas, de todos os níveis, estão afastadas da educação, pois trabalham apenas o ensino dos conteúdos das disciplinas curriculares, pouco fazendo com relação à essência da vida, ao desenvolvimento das potencialidades do ser humano. Temos muito conhecimento supérfluo, muito academicismo, muito discurso retórico, muita burocracia, e pouco, bem pouco sobre os porquês da vida.

As igrejas, de forma geral, perderam-se da alma, ou poderíamos dizer que a alma da religião está sob um manto nublado quase impenetrável, de tão intrincado, emaranhado e confuso são suas crenças, suas teologias e suas tendências para se misturar ao poder temporal dos que governam os destinos humanos.

Diante de tudo isso, somado ao alto índice de analfabetismo funcional, de violência em todos os níveis, de corrupção moral, vemos que a educação atual precisa de total transformação, iniciando-se pela filosofia que a rege, que precisa ser espiritualista, e culminando na prática pedagógica, que deve priorizar a liberdade do pensar, a autonomia com responsabilidade, a cidadania ética.

Sem essa transformação, que é urgente, continuaremos a assistir males sobre males campeando na sociedade humana, e mais gerações irão passar sem que se transforme uma vírgula do que já estamos fartos de conhecer.

É preciso transformar a educação, para que esta transforme os indivíduos, e estes transformem a humanidade.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Autonomia e moral na educação

Ao longo de quase 23 anos à frente do Ibem Educa, organização não governamental sem fins lucrativos, já ouvi vários educadores, muitos amigos, ponderando que devo parar de falar em educação moral, que essa fala não é bem vista no meio educacional entre professores e pedagogos, talvez sendo barreira nas escolas às propostas pedagógicas apresentadas pelo instituto.

Apesar dessas falas nunca mudei meu discurso nem o foco do Ibem Educa, apenas, vez ou outra, substituindo a educação moral por educação em virtudes, educação ética e assim por diante, mas com o conteúdo sempre direcionado para o que entendemos da educação ser desenvolvedora do caráter das crianças e jovens, do seu senso moral.

Não estou sozinho nesse entendimento. Eis o que fala o educador Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia:

Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar.”

Antes de continuar, um aviso aos leitores: não estou interessado em fazer discussão sobre o viés político-ideológico de Paulo Freire, estou concentrado em seu pensar sobre educação, e ele é bem claro em dizer que a educação é essencialmente formadora do ser humano, e nessa formação não como desvincular a formação técnica da formação moral, elas são indissociáveis.

Como diz o patrono da educação brasileira, e respeitado internacionalmente, os professores, considerando a natureza humana integral não podem apenas ensinar conteúdos de disciplinas curriculares, devem igualmente se preocupar com a formação moral dos alunos.

A escola é instituição humana de educação do ser humano, e é formada por pessoas, seres humanos em interação, em desenvolvimento cognitivo e emocional, tanto as crianças, os jovens e os adultos, pois o processo de educação é contínuo e está presente por toda a vida. Não há como afirmar que já sabemos tudo, que já desenvolvemos tudo, sempre é tempo de aprender, de constantemente estar aprendendo.

É triste verificar professores que enfaticamente afirmam estar na escola apenas para cumprir seu papel profissional de passadores de conteúdos, cuja única preocupação é ensinar os conteúdos obrigatórios do currículo, na carga horária estabelecida pela lei e obedecer as burocracias administrativas e pedagógicas.

Todo professor deve ser um educador, e sei que esta minha afirmação vai levar muitos leitores a fechar o texto, pois assim não se consideram, mas apenas e tão somente professores.

Precisamos trabalhar a formação moral das novas gerações, dando-lhes autonomia com responsabilidade, levando-as a serem solidárias e éticas, humanizando-as e sensibilizando-as para o pensar no bem comum. Esse é o verdadeiro papel da educação, unindo os esforços da escola com os da família.

Para encerrar, deixo como reflexão o pensamento de Paulo Freire: “educar é substantivamente formar.”

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Pergunta de criança

Toda criança, de forma natural e espontânea, faz perguntas, querendo saber sobre isto e aquilo, como e porquê, na sua ânsia de aprender, sempre de acordo com sua capacidade de entendimento e seus interesses mais imediatos. É natural. Devem os pais e os professores, portanto, estarem prontos, com paciência e criatividade, para dar as respostas que satisfaçam a criança. Nada pior do que receber como resposta certas sentenças padronizadas que nada explicam: “agora não posso responder, estou ocupado”; “isso é pergunta que se faça?”; “é assim, porque estou dizendo que é assim”.

Não sabem esses pais que a criança necessita de explicação para compreender porque sim ou porque não?

Se nós, adultos, necessitamos de explicações para compreender certas situações, certas necessidades, e somos adultos, quanto mais a criança, que não possui o desenvolvimento intelectual que possuímos.

Muitos pais recusam-se a dar explicações porque, confessam, sentem-se embaraçados em conversar com a criança, não conseguem entrar no mundo infantil, possuem dificuldade em escolher as palavras adequadas, ou tem vergonha de certos assuntos, como aqueles ligados à sexualidade. Para esses pais recomendamos o exercício do diálogo com seus filhos desde a infância, acostumando-se a tratar os mais diversos assuntos com eles. Existem outros pais que se recusam a dar explicações porque acreditam que a criança deve obedecer às suas ordens e que isso basta, pois os filhos não são "burros" e, portanto, têm de compreender os reclamos dos pais. Isso não é verdade. A criança possui estágios de desenvolvimento psicológico, e até os sete anos não consegue desenvolver a contento raciocínios abstratos. Para esses pais recomendamos um pouco de estudo sobre a infância e menos arrogância.

Temos ainda aqueles pais que mantém seus filhos envoltos em fantasias, em histórias de fadas e bichos, ou entre brinquedos e brincadeiras, desviando-os de um contato maior com o mundo em que vivem, querendo preservá-los dos males sociais. Mas toda criança cresce, torna-se sucessivamente adolescente, jovem, adulto e vai deparar-se com os desafios do viver. Para esses pais recomendamos olhar seus filhos não como objetos, mas como seres humanos.

Finalmente, para todos os pais, uma advertência: cuidado com os exemplos diante dos filhos! Um bom exemplo vale mais do que mil advertências. Um mal exemplo derruba todos os sermões. Não é possível proibir qualquer ato de violência do filho na escola quando somos violentos dentro de casa. Essa regra vale para todas as situações, sejam domésticas ou sociais.

Toda criança quer saber porque não pode dizer palavrão; porque não pode bater no colega de escola; porque não pode… ou quer saber porque pode isso ou aquilo, ou como ocorre aquele e outro fenômeno. Isso é natural. Desnaturais são as atitudes que os pais tomam, fugindo às explicações que muito ajudariam o desenvolvimento intelectual e moral dos filhos.

Se você é pai, mãe, professor, avô, avó, enfim, se você é responsável por alguma criança, lembre-se: um dos maiores tesouros da infância é sentir que o adulto a seu lado é, antes de tudo, um amigo na estrada da vida.

Vídeo - O Jovem e a Dinâmica Educacional

O vídeo sobre educação espírita O Jovem e a Dinâmica Educacional aborda a importância da participação do jovem no processo ensino-aprendizag...