segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Reflexões sobre a escola

Temos visto e ouvido muitas reclamações de violência física e moral na escola. São cenas tristes como: professores agredindo alunos, alunos agredindo professores, briga entre alunos dentro e fora da escola, alunos que roubam a escola e outros colegas e assim vai! Pais, professores e diretores de escolas não sabem o que fazer para resolver o problema. É uma aflição só! Mas, tem solução? Se houvesse uma receita de bolo para se cuidar da violência escolar seria bem fácil resolver. No entanto, a situação requer mais atenção e carinho por parte das pessoas envolvidas no caso.

Durante anos a fio a escola ignorou o seu papel social e limitou-se a ensinar de uma maneira que para uma determinada época foi válida. Para as escolas públicas bastava se preocupar em cumprir o currículo com os alunos; as particulares ocupavam-se do mesmo e acrescentavam também a questão comercial. Outra época! A comunicação era feita boca a boca, por rádio, televisão, jornal, revista e bilhetinho. Hoje há crise econômica, furto de dinheiro público e impunidade como no passado, porém sabe-se de tudo em tempo real! Assim, fala-se através de aplicativos de celulares instantaneamente agendando encontros e articulando ações de cunho social! Na internet se utilizam as redes sociais para todo tipo de ação seja pessoal ou comercial. Os alunos participam de greves e manifestações públicas! Agendam protestos contra os governos e fazem denúncias “on line” com vídeos produzidos por celulares. Não há mais privacidade!

As pessoas modificaram o modo de pensar e agir. Existe uma apelação muito grande da mídia comercial para incentivar o consumo desenfreado. A meta é global! São milhões e bilhões de reais, dólares e euros envolvidos na questão. Mas, tem uma coisa que não mudou e continua o mesmo: o amor. Sim! Amar! Essa é a forma de se resolver todos os problemas que nos rodeiam. Os pais amarem mais seus filhos; os educadores amarem mais seus educandos e a escola amar mais a comunidade. Motivados pelo amor ao próximo as escolas devem abrir as suas portas às comunidades, oferecer o diálogo como ferramenta de trabalho e incentivar a participação da sociedade nas mesmas. Deve buscar o contato com os pais e acolhê-los em seu seio escolar, a fim de que eles sejam multiplicadores do bem junto aos seus filhos no próprio horário de estudo.

Existem escolas que passaram a se envolver com a sociedade a ponto de oferecerem o espaço físico nos finais de semana para usufruto da comunidade local, obviamente com regras e responsabilidades. É um jogo de futebol na quadra de esportes; um encontro de chá social de senhoras; jogos diversos para as crianças; espaço para se estudar e outras atividades. Outras escolas chamaram os pais para se envolverem com o apoio escolar e atividades de recreação, possibilitando acompanharem de perto o desenvolvimento dos seus filhos. Professores e pais mais próximos, entre si permitem se conhecer as dificuldades do relacionamento familiar. Assim, o envolvimento se torna uma parceria moral resultando no óbvio: a eliminação total da violência contra a escola, professores e alunos, e a violência entre eles, que são os atores da vida escolar e também da vida social.

O amor parece morto, mas não está! Basta praticá-lo e tomar consciência da sua existência. Quando as escolas e seus dirigentes conseguirem entender o mecanismo do diálogo e da atividade colaborativa e participativa do “ternário” escola–educador- educando na nossa sociedade e somar o amor, aí se escreverá uma receita do bolo contra a violência e os estabelecimento da paz. É “uma” receita de bolo e não “a” receita de bolo, pois cada escola é um mundo particular, feita por pessoas diferentes em contextos diferenciados, mas não temos dúvida que o amor é o ingrediente principal e essencial dessa receita.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O dia em que fazer funcionou

Teresa é daquelas professoras que não se acomodam ao sistema e não acatam subservientes o que a coordenação pedagógica estipula ou a direção escolar decreta. Está sempre procurando por soluções pedagógicas para os desafios diários da educação escolar. E porque é criativa, inovadora e dinâmica, vive às voltas com problemas com a burocracia do sistema educacional.

Quando a secretaria de educação não sabe mais o que fazer apela para a transferência, e lá vai a Teresa para outra escola, sempre para uma escola pior, com mais problemas, como a violência, empurrada para a periferia da cidade, como se a nossa professora pudesse ser apagada, esquecida, cancelada. Mas ela não se entrega.

E aconteceu que se deparou com altos índices de violência e desrespeito aos outros na escola de periferia para onde tinha sido transferida. Procurando soluções, encontrou na mediação de conflitos o melhor caminho. Propôs junto à direção a implantação da mediação de conflitos envolvendo professores e alunos, e conseguiu o aval para ir em frente com o projeto.

Teresa encontrou forte resistência por parte de alguns colegas de trabalho. Primeiro, porque muitos simplesmente não acreditavam que com aqueles alunos pudesse a mediação de conflitos funcionar. Segundo, porque outros não estavam dispostos a perder tempo em algo que lhes daria mais trabalho e com rendimento duvidoso. Terceiro, porque a coordenadora pedagógica não havia demonstrado muito entusiasmo com a ideia. Prevalecia o conceito de que com aqueles alunos não valia a pena esse esforço. Havia um descrédito geral quanto àquelas crianças e adolescentes.

Nossa professora destemida não desistiu e deu início ao trabalho. Reuniu os alunos classificados pelos professores como os piores, os mais violentos, e começou a mediação de conflitos com eles. Alguns zoaram a professora, outros desconfiaram da proposta, mas as resistências foram caindo e vários alunos, na verdade considerados apenas problemas, se engajaram, e os bons resultados, com mais alguns professores chegando junto, começaram a aparecer.

Com o índice de violência diminuindo, o projeto chamou a atenção dos pais, que também começaram a aderir pouco a pouco à proposta pedagógica de diálogo para resolver diferenças e encontrar soluções para uma melhor convivência entre todos. Com isso a coordenadora pedagógica se aproximou e, pouco a pouco, junto com a diretora, foi tomando conta do projeto de mediação de conflitos e cultura da paz, tirando a professora Teresa do centro das atenções, até se colocar como idealizadora e responsável do mesmo junto às outras instâncias da secretaria de educação.

Mais uma vez a professora Teresa foi escanteada, apagada.

Ouvimos a história por outra professora que a tudo presenciou, e perguntamos: E a professora Teresa, como ficou, onde está?

Sua amiga nos disse que ela continua na escola, mas sem muito brilho, sendo o tempo todo cobrada para obedecer as burocracias administrativas e pedagógicas, tendo sido apagada do projeto de mediação de conflitos e cultura da paz, que já está um tanto quanto descaracterizado e perdido, pois não teve sequência como se esperava tivesse.

Respirei fundo e solicitei que a colega educadora levasse meu abraço à professora Teresa e a parabenizasse não apenas pelo projeto, mas pela perseverança em afrontar o sistema, e que nunca perdesse a esperança, pois é dessas professoras que precisamos para fazer da educação uma prioridade na formação das crianças e jovens.

A professora Teresa é exemplo do que que podemos fazer para transformar e melhorar a escola, sempre acreditando nos alunos e na força da educação para resolver os problemas sociais que hoje enfrentamos.

Seria muito bom que outras professoras e outros professores seguissem o exemplo da Teresa.


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Sol de verão em dia inverno

Problemas a resolver e dificuldades na vida todos nós temos, isso não é privilégio de ninguém. Agora, você pode deixar que os problemas e dificuldades paralisem sua vida, ou façam você desistir de um projeto, de um trabalho; ou pode, com suas forças, aprender com esses mesmos problemas e dificuldades, superando-os com o tempo, minimizando-os, sem perder a esperança de dias melhores e um futuro de acordo com os esforços que você está empreendendo para ter uma vida melhor.

Com os professores não é diferente.

Professor é um ser humano que lida com outros seres humanos, no caso, seus colegas de trabalho, seus alunos e os pais de seus alunos.

Onde se reúnem seres humanos muitas vezes temos atritos, falhas de comunicação, ideias diferentes e, portanto, problemas e dificuldades a superar.

A escola não é isenta de ter conflitos, mas os conflitos existem para serem entendidos, conversados e resolvidos.

Rubem Alves dis que “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo inverno do lado de fora, a despeito dele brilha o Sol de verão no lado de dentro.”

O professor jamais pode perder a esperança de dias melhores na educação e no trabalho escolar que realiza, desenvolvendo o processo de ensino e aprendizagem.

Os desafios são inúmeros: crianças desobedientes, adolescentes sem limites, jovens agressivos, pais incompreensívos, colegas acomodados; mas não somente isso, pois também temos o outro lado da moeda: crianças participativas, adolescentes ávidos de aprender, jovens entusiasmados. Pais colaborativos, colegas empenhados em dar o seu melhor.

Tudo depende da visão que temos sobre a educação e a escola.

Como diz o Rubem Alves: pode estar o inverno mais rigoroso do lado de fora, mas o que importa mesmo é o professor fazer o Sol de verão brilhar dentro da escola através do seu trabalho.

Não importa que sua escola esteja próxima ou mesmo dentro de uma comunidade onde as carências se multiplicam e a violência prevalece. Mesmo assim temos que reconhecer que somente a educação é o caminho para solucionar os problemas que ora afligem essa comunidade.

Professor, professora, não desista!

Se você desistir, se você desanimar, quem irá formar os bons cidadãos do presente e do futuro?

Se você não acreditar na educação e na escola, quem fará amanhã a humanidade melhor?

O amor é o maior fundamento da educação, como nos diz Pestalozzi, então coloque muito amor no seu trabalho, pois o amor tem a força de vencer todos os problemas e dificuldades que a vida pode apresentar.

A escola são pessoas, são seres humanos num trabalho conjunto pela educação das novas gerações. Não as deixe desamparadas. Crianças e jovens depositam em você a esperança de brilharem como um Sol de verão num dias de inverno, e isso somente pode acontecer se você professor, se você professora, acreditar na educação e fazer da escola um organismo vivo pulsante de amor.

Pense nisso, e continue seu trabalho, com toda esperança.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Escutatória pela vida

O Michel estava com 13 anos e era visto pelos professores como um aluno introvertido, de poucos amigos, pouco participativo nas atividades em grupo, mas com média inteligência e notas dentro da média esperada, nada excepcional nem frustrante. Muitas vezes passava despercebido pois não dava problemas, nada aprontava que merecesse maior atenção. Era mais um aluno no mar de alunos da escola.

Contudo, naquele dia pesava o ar na escola, estava difícil respirar. E todos perguntavam: Como podia ser? Como ninguém havia percebido a tragédia que estava por acontecer? É que o Michel havia cometido suicídio, tinha se tirado a vida. Todos estavam arrasados e não sabiam muito bem o que fazer.

Esqueceram que antes de ser aluno num mar de alunos, o Michem era um ser humano, uma pessoa com sentimentos, com uma história de vida. Nem seus sentimentos nem sua vida foram levados em conta pelos que fazem a escola, e assim não se deram conta dos sinais que vinha dando: isolamento, não participação, poucas palavras, mergulhado em si mesmo quase todo o tempo, poucas amizades. Sinais da depressão que foi se aprofundando, culminando com o autoextermínio.

Essa história é mais comum do que possamos imaginar. Depressão e suicídio na infância, adolescência e juventude já é considerado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) uma epidemia, um grave problema de saúde. Se antigamente o suicídio era ligado aos adultos, hoje é diferente, nossas crianças e jovens fazem parte dessa estatística.

Precisamos urgentemente da escutatória, do saber ouvir o que os jovens têm a nos dizer, para que possamos dar a eles o que necessitam na área emocional, na área do sentimento.

Pais e professores não estão preparados para lidar com essa questão. Não recebem em sua formação essa qualificação e ficam perdidos quando os sintomas aparecem em seus filhos e alunos. Meu filho com depressão? Meu aluno cometendo suicídio? Perguntam atônitos, sem entenderem o que aconteceu e como não se deram conta disso. E o que fazer para evitar que outras crianças e jovens se deixem levar pela depressão, correndo o risco do autoextermínio?

Passou por essa experiência o professor Léo Buscaglia. Depois de passar por uma espiral depressiva e se erguer com muita meditação e estudo de filosofias espiritualistas, por conta do suicídio para ele surpreendente de uma aluna, Léo entendeu que o caminho era trabalhar o desenvolvimento do sentimento do amor e, automaticamente da empatia e da resiliência com seus alunos. Seu trabalho rendeu tão bons frutos que se tornou palestrante e escritor para levar esse importante trabalho para o público.

Léo Buscaglia implantou na universidade o curso de extensão Amor e, durante anos, listas de espera por vaga se acumularam, tal a ansiedade dos jovens em estudar e compreender esse que é o maior dos sentimentos e tão importante para melhor viver.

Somos seres de relação, somos dependentes uns dos outros. Como viver apenas com o mundo digital do celular e dos games ou redes sociais? Somos necessitados do abraço, da palavra, do olho no olho, do diálogo, do sorrir e chorar. Essas coisas não podem ser feitas através da internet por meio de aplicativos. Precisamos estar com o outro, permitindo que o outro esteja conosco.

Família e escola são institutos humanos de convivência e de preparação para a vida de relação na sociedade. Estão, de fato, fazendo seu papel nessa educação?

Até quando vamos deixar passar por nós o Michel? Até quando vamos desdenhar e deixar no esquecimento o trabalho do Léo?

Deixo estas perguntas para você pensar diante do quadro assustador de depressão e suicídio na infância, adolescência e juventude.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Lá nas terras das minas gerais

Foi num evento educacional que conheci os amigos Cida e Tonheca e fiquei sabendo que eles estavam à frente de uma escola na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. Trocamos ideias e me convidaram para lá estar. E durante quinze anos ficamos indo para lá, vendo a escola crescer da educação infantil para o ensino fundamental, e depois para o CASA – Centro de Apoio Sócio-Afetivo, seu braço filantrópico e comunitário em ampla área arborizada que agora recebe também parte da escola.

Qual é o diferencial do Centro Educacional Conhecer? É que é uma escola inovadora, no conceito e na prática. As turmas compõem ciclos de estudo e pesquisa, as professoras são orientadoras do processo de aprendizagem, os pais participam do processo pedagógico, entre outras coisas que fazem a diferença, não apenas metodológica, mas na filosofia educacional, pois virtudes e valores, humanização e participação estão presentes o tempo todo.

Então nos perguntam se o Conhecer deve ser o modelo de escola a ser adotado no nosso Brasil. Respondemos que é uma escola que vale a pena ser visitada, ser conhecida, mas não deve ser copiada e reproduzida. Como aliás nenhum modelo escolar deve ser copiado e reproduzido. Vou explicar porque.

Cada escola é uma entidade humana única. Pode seguir uma mesma filosofia e metodologia, mas não pode ser cópia de outra escola. Isso porque a escola é formada por pessoas, que são indivíduos de personalidade diversificada, em contextos diferenciados sociais e históricos. Qualquer modelo ou metodologia precisa sofrer as adequações necessárias, sob pena de naufragarem na sua execução e nos seus objetivos.

Lá em Leopoldina determinadas atividades educacionais podem estar dando certo, mas isso não significa que transportá-las para uma escola, por exemplo, de uma cidade do interior do Maranhão, produzam os mesmos bons resultados. Por que? Porque lá as pessoas são outras, a realidade dessas pessoas é diferente, a cultura local é diversa da cultura lá do interior mineiro. O copia e cola em pedagogia não funciona.

Então tenho que dizer que o Conhecer é uma escola inspiradora para outras escolas de como se pode fazer uma educação inovadora, criativa e humanizada.

O mesmo podemos dizer de escolas como a Amorim Lima, o Âncora e outras espalhadas por este nosso Brasil, que desenvolvem projetos pedagógicos diferenciados, centrados no processo de aprendizagem dos alunos, que são vistos como pessoas, indivíduos em desenvolvimento. São escolas que funcional como uma grande família em comunidade de aprendizagem. Todos ensinam, todos aprendem, uns com os outros.

Sonhar que todas as escolas públicas de um município funcionem do mesmo modo, no mesmo modelo, é sonhar um sonho impossível. Repito: podem seguir uma mesma filosofia e metodologia, mas cada escola será única, com sua liberdade administrativa e pedagógica para adaptar e criar, de acordo com seus professores, alunos, funcionários e pais.

Já vi escolas que fracassaram com o sistema copia e cola. A proposta era boa, mas não funcionou porque a realidade local não foi levada em consideração, não foi respeitada. E não pode mesmo dar certo apenas copiar uma escola de um país europeu e querer fazer do mesmo jeito no interior brasileiro, e mesmo de uma determinada região brasileira para outra região.

Bons projetos pedagógicos não faltam no nosso país. Acredito que não precisamos importar projetos escolares de outros países, mas precisamos compreender que insistir em copiar determinado modelo, fazendo tudo igual, é burrice. Somos criativos, inventivos, por natureza, e isso não pode ser colocado na gaveta.

O Conhecer, lá em Leopoldina, é uma escola que pode incentivar e inspirar outras escolas inovadoras, Vale a pena visitar e tomar um delicioso café mineiro com a Cida, o Tonheca e companhia, e de lá sair sonhando um bom sonho educacional para o Brasil tão esperado de um hoje e de um amanhã repleto de boas esperanças através de uma educação humana na formação de cidadãos conscientes e éticos.

Vamos para as terras das minas gerais e de lá sair para as terras do nosso Brasil?

Vídeo - O Jovem e a Dinâmica Educacional

O vídeo sobre educação espírita O Jovem e a Dinâmica Educacional aborda a importância da participação do jovem no processo ensino-aprendizag...