Da coleção de obras ditadas pelo espírito Manoel P. de Miranda através do médium Divaldo Franco, destacamos o livro Trilhas da Libertação, lançado no ano de 1996, com a bandeira editorial da Federação Espírita Brasileira, onde encontramos preciosas lições acerca do centro espírita e da mediunidade, trazendo para nossa reflexão pequeno trecho, mas muito elucidativo, que transcreveremos a seguir. Antes, esclareçamos que trata-se de uma explicação dada pelo espírito Vicente, que à época era o dirigente espiritual de um centro espírita que estava às voltas com desvios doutrinários por parte dos seus integrantes encarnados. A uma pergunta que lhe foi endereçada a esse respeito pelo autor do livro, ele respondeu:
“Numa sociedade espírita, a tarefa primacial é a de iluminação da consciência ante a realidade da vida, seus fins, sua melhor maneira de agir, preparando os indivíduos para a libertação do jugo da ignorância, a grande geradora de males incontáveis.”
É muito importante conversarmos sobre a finalidade do centro espírita, pois temos visto muitos dirigentes preocupados com a quantidade de frequentadores e tarefeiros, em muitos casos essa preocupação chegando ao ponto de vincularem o funcionamento do centro espírita aos serviços mediúnicos de tratamento espiritual, pois a mediunidade curativa atrai as pessoas, lota as dependências da instituição; em outros casos recorre-se à mediunidade psicográfica na obtenção de mensagens de entes queridos desencarnados, o que também é chamariz para um grande público ávido de informações de quem agora vive no mundo espiritual. Em ambos os casos, o fenômeno assume o lugar da doutrina, e isso caracteriza desvio de finalidade do centro espírita, que deve sempre ser fiel representante do Espiritismo.
Nas obras básicas, que conhecemos como Codificação Espírita, ou seja, os livros assinados e publicados por Allan Kardec, reunindo os ensinos dos espíritos superiores, temos essa questão muito bem esclarecida, mostrando que o fenômeno mediúnico não é o principal, mas sim a filosofia e as consequências morais dos ensinos espíritas. A mediunidade faz parte das atividades do centro espírita, mas jamais deve ser espetáculo público, não devendo ser utilizada como meio de atrair público, pois em assim acontecendo, são grandes os riscos de desvios de conduta por parte dos médiuns, que podem até mesmo deixar-se levar pela mistificação, pressionados que ficam em ser intermediários constantes dos fenômenos de cura ou de psicografia.
Temos assistido centros espíritas transformarem-se em verdadeiros hospitais, com suas dependências repletas de macas, camas hospitalares, com médiuns e apoiadores vestidos de branco, quando isso nada tem a ver com o Espiritismo e sua prática. As pessoas que ali comparecem têm o objetivo de apenas melhorarem da saúde com o tratamento aos seus males orgânicos ou psíquicos, sem nenhuma preocupação com o estudo da doutrina espírita, sem vinculação com a necessidade da autoeducação e da moralização que, na verdade, carecem profundamente. O mesmo percebemos nas organizações espíritas que promovem sessões para obtenção de cartas mediúnicas de entes queridos desencarnados, com dia e hora marcados, como se os espíritos estivessem sob nossas ordens e não fossem dotados de livre arbítrio. Os médiuns são considerados meras máquinas reprodutoras de mensagens do além, na maioria sem oferecer detalhes significativos dos autores das mesmas, à frente de um público que pouco ou nada quer saber dos princípios e vivência do Espiritismo e do Evangelho.
Essas situações configuram desvio da finalidade do centro espírita, que deve proporcionar aos que o procuram o estudo do Espiritismo, para que assim as pessoas possam ter uma nova visão sobre a vida, podendo responder por si mesmas quem são, de onde vieram, o que estão fazendo aqui e para onde vão, pois é isso o que a doutrina espírita proporciona aos seus adeptos, motivo pelo qual o espírito Vicente acentua que “a tarefa primacial é a de iluminação da consciência ante a realidade da vida”, realidade essa que significa olhar para si como alma imortal em caminhada evolutiva até a perfeição, numa visão reencarnacionista, dando um novo sentido ao viver.
Vivendo numa aura mística, bem ao gosto cultural brasileiro, compreendemos que o fenômeno exerça um forte poder de atração sobre as pessoas, mas o dirigente do centro espírita deve deixar de lado qualquer injunção com o misticismo e o espetáculo, lembrando que a qualidade deve ser o objetivo, e não a quantidade; que a libertação das consciências dessa cultura fenomênica é o objetivo a ser perseguido, conforme as diretrizes doutrinárias seguras apresentadas por Allan Kardec.
Recomendamos a leitura atenta e o estudo dessa obra magnífica que é Trilhas da Libertação, pois temos certeza que muito contribuirá para o melhor entendimento e a melhor prática do Espiritismo, além de trazer subsídios importantes para sérias reflexões sobre o centro espírita e a mediunidade. Nada temos a perder, mas muito a ganhar, abrindo espaço para essa leitura, estudo e séria reflexão.
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